Eu estou sentindo uma coisa estranha... Eu estou sentindo uma coisa estranha que não sei bem o que é... Eu estou sentindo uma coisa esquisita que não é revolta nem decepção. Eu estou sentindo uma coisa esquisita que não sentia há muito tempo.
Eu estou sentindo uma coisa que não é depressão. Normalmente é uma tristeza depressiva, mas desta vez é uma tristeza. Triste. É uma tristeza tipo cachorrinho. Um cachorrinho filhote. Não é que eu não tenha um lugar. É que ele é uma caixa de sapato num apartamento de andar alto.
Eu estou sentindo uma coisa estranha... Eu estou sentindo uma coisa estranha que não sei por que... É como seu eu soubesse que está certo o meu coração sangrar. Ele está pingando, mas não é como se ele tivesse enchido, enchido, enchido tanto que transbordasse. É mais como se ele estivesse cheinho, sim. E começasse a sangrar pelos poros. Sem nenhum corte aparente.
Eu estou sentindo como uma menina que espera o ano todo por um brinquedo especial no Natal e não ganha. Não que ela não tivesse sido uma boa menina. Não que seus pais não quisessem dar. Eles juntaram o dinheiro, só que ainda não foi suficiente.
E a gente fica triste, mas não tem nada que possa fazer. É uma questão estrutural. Sistemática. Coletiva. Não depende de você. E mesmo quando perguntam se você quer ganhar outra coisa, só para não passar em branco. Você decide que não. Porque sabe que vale a pena esperar o próximo aniversário, ou Natal se for preciso. Porque é aquele brinquedo que você quer. E você sabe disso. Você sabe que vai brincar. Não será como os outros que te encantaram apenas por ser uma novidade. Você quer esse. Especificamente. De verdade.
Daí sua Tia vem dizer que você tem saúde, estuda e isso que importa. Eu sei. Juro que sei que isso é importante, mais do que tudo. Mas é o brinquedo que eu quero.
Você sabe que é um daqueles momentos que você pode aproveitar para aprender tudo que sua mãe sempre falou sobre saber esperar, aceitar o que não pode mudar. Amadurecer. Mas mesmo sabendo de tudo isso; e escolhendo conscientemente esperar. O coração pinga. E você fica triste.
É uma coisa estranha que a gente sente. É uma tristeza que não é depressiva. É uma tristeza triste, tipo cachorrinho.
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