01 setembro 2011

Na prática a teoria é outra...

          Durante a aula de redação essa semana, enquanto tirava uma dúvida com a professora a respeito da estruturação correta da carta argumentativa, ela me disse em dado momento que o Vestibular não mede inteligência, na verdade esse mede sua habilidade de fazer aquela prova.  Argumentei então que escrevo há muito e que já disponho de um estilo próprio de escrita. Essa, coincidente e até mesmo ironicamente, não se enquadra na dissertação ou na carta argumentativa que esperam do escritor uma postura menos subjetiva, pessoal e mais argumentativa, estruturada segundo uma tese, com 5 parágrafos de desenvolvimento e uma conclusão em detrimento do personalismo e da poética. Um fardo doloroso essa redação de vestibular.

         Inicialmente confortei-me com o pensamento de que isso passa, que seria somente uma prova e que depois... bem, depois viria a universidade, onde eu poderia dar asas à minha imaginação e extrair um pouco de quem sou e transformar em arquitetura aplicada. Naturalmente, após a universidade viriam os estágios e o trabalho em uma grande empresa onde eu poderia ser mais livre ainda e teria mais ferramentas para a construção e aplicação dos meus ideais de conforto humano e sustentabilidade. 

          Pensei, pois. Lembrei-me que a universidade é também uma instituição de ensino e em que medida, então, esta diferenciar-se-ia daquela? Por que a universidade permitiria minha livre expressão quando o vestibular, que é o exame de admissão para a universidade, não o faz?  Considerei o pré-vestibular como um microcosmo desse amplo universo social ao qual estamos inseridos. Nesse sentido, seria altamente provável que esse processo de modulação pessoal que apresenta-se como um fardo doloroso hoje, repetir-se-ai no futuro e eu teria mais uma vez de me fatiar para me enquadrar e, que a expressão da minha imaginação e criatividade, seria mais uma vez enformada.

            Pensei também em todas as - até então por mim consideradas - lendas urbanas de funcionários frustrados, nos seus projetos não concluídos e nas consequências pessoais disso. Seria eu um deles? Estaria eu caminhando na estrada que leva à tal destino tão oposto ao que busco? Pensar nessa como "somente uma prova" na verdade implica em futuramente considerar cursar "apenas uma universidade" e ter "apenas um emprego" e se hoje busco o conforto psicológico e físico do homem, depois deste exame admissional não o faria mais. Meu foco mudaria, minha imaginação não seria transformada em arquitetura aplicada. No máximo se converteria em concreto (armado). Minhas ferramentas empregatícias serviriam para aplicação do quê?  

          Lendo uma matéria da Isto É sobre José Antônio Reguffe, eleito deputado federal com a maior votação proporcional do país nessa última eleição, vi sua declaração de que "Ceder um milímetro em matéria de princípio é o primeiro passo para ceder um quilômetro" que veio a confirmar o que anteriormente pensara sobre o fato dessa ser "somente uma prova". 

          Visto que pospor não é solução. O que seria então? Como atingir o objetivo de transformação da imaginação em fator gerador de conforto humano? 


       Ideologicamente seria através da manutenção das fronteiras iniciais. Praticamente? 

Continua...

Rio, 16 de setembro de 2011.


Praticamente? Praticamente num Y é onde estou. Bem na meiuca, alí onde o caminho único passa a ser duplo. Duas opções são apresentadas, dois caminhos a seguir: 


- Segurança ou Liberdade? Diz a irritante voz daquele que me professa terças à noite.


- Segurança com sua aprovação comportamental? Segurança com sua trilha já marcada? Segurança com sua aposentadoria garantida? Segurança com sua liberdade suprimida? Ou liberdade? Liberdade para sofrer retaliações  e críticas? Liberdade para tentar? Liberdade para ser medido, pesado e, num golpe de sorte, considerado gênio e num de azar, mártir?


- Há mais escravos ou senhores? Persiste incômodo.  
- EscravosRespondo oprimida.
- E por que eles não fazem nada para se libertar se estão em maioria?
- Porque acreditam ser escravos.


Porque acreditam ser escravos...


Continua...


Rio, 30 de setembro de 2011


Lembro dos professores da vida frustrada afirmarem ser apenas uma questão de tempo até nos adaptarmos a nossa condição.


Ainda espero.





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