O Surrealismo sempre foi o movimento artístico que mais gostei, não por sua estética, plástica, mas única e exclusivamente pelo fato dele ter surgido. O Surrealismo nasce no pós 1ª Guerra Mundial e toma força com a quebra da bolsa em 29. A leitura que eu faço é de que as pessoas viram tantos absurdos, tantas coisas que não se tem como descrever que o impossível tomou forma, o impossível agora passava a ser retratado. Ao impossível que se tornou real, deu-se o nome de Surreal. O Surrealismo é o movimento do surreal, daquilo que transcende o real.
Em sociologia, o termo Anomia foi introduzido por Durkeim, para mostrar que algo na sociedade não funciona de forma harmônica, quando são rompidos todos os valores tradicionais, no qual tudo é possível, como nas guerras.
Durante a 1ª Guerra, viveu-se a Anomia. Civis sendo sistematicamente atacados como se fizessem parte do conflito, a conquista de um território que imprimia a conquista de tudo que nele havia, ignorando o direito à propriedade privada. Na Anomia, não se conquistam apenas o território, mas suas mulheres, e o "direito" de usá-las.
Atualmente, no Brasil, vivemos um Estado de Exceção, que se opões diametralmente ao Estado Democrático de Direito, que seria o Estado no qual a população abre mão do seu poder de justiça individual em prol de um poder regulador maior. No Estado de Direito, a justiça não é feita pelas próprias mãos, recorre-se a um Estado, a um poder maior que, através de leis (também definidas e acordadas pelo povo), impões limites e penalidades para aquilo que se considera prejudicial à sociedade, crimes.
Mas não é bem assim no Brasil atual. No Brasil atual, temos de uma forma velada (não declarada) a suspensão de direitos e o Estado pode tomar, sem perguntar a ninguém antes, decisões que limitem os poderes do cidadão, como decidir a seu bel prazer quem deve ou não ser reprimido. E o Estado decidiu reprimir aqueles que se opõem a ele. Todos aqueles que abriram mão do seu direito de justiça individual em prol de um poder maior e que, hoje, acham que ele não está sendo bem utilizado.Se você, como eu, acredita que deviam ser feitos maiores investimentos em saúde, na formação educacional de uma população dotada de consciência crítica, que não concordam com a forma que o seu dinheiro está sendo administrado, bem, vocês também estão contra o Estado, e porque é um Estado de Exceção velado, você pode até tentar se opor, mas eles vão te reprimir. E hoje, foram 7 policiais (unidade física do aparelho de repressão estatal) para cada opositor. Hoje, a relação foi de 7 para calar a cada 1 que queria falar.
E foi nesse contexto de anomia, suspensão arbitrária dos direitos civis e surrealismo que meu óculos foi roubado. Tão logo a confusão começou no Ato dos Professores do dia 13 de julho de 2014 na praça Saens Pena, coloquei a minha máscara e meu óculos de proteção contra gás lacrimogênio. No segundo que coloquei a máscara, um policial disse que eu tinha de tirá-la, sob a ameaça de desacato caso eu não a retirasse. Retirei.
Em um outro momento, com muitas bombas, uma menor foi apreendida. Eu tentava fotografar o número da viatura que a levava com policiais homens apenas dentro (em um Estado Democrático de Direito uma menor não pode ser apreendida e levada dentro de uma viatura, muito menos sem a presença de uma policial mulher, muito menos sem que seja informado para qual delegacia), fui empurrada para longe da viatura e quando me afastava, um policial arrancou o óculos do meu rosto dizendo:
"Eu disse que era para tirar a máscara!"
Impotência e depois raiva. Pude ver ele se afastando com meu óculos na mão, mas eram 7 para reprimir cada 1 que tentava discordar, e ele se foi.
Uma amiga diz que tenho de escrever textos que motivem as pessoas a pensar, mas e quando a gente chega em casa desesperançoso, sabendo que o movimento diminuiu para menos de um décimo do que foi um dia, e que a repressão é imensa, que enquanto você apanha as pessoas assistem a TV, o que você faz?
