01 outubro 2013

2A Fatinha

A boemia que começa desde pequeno e entranha na alma.


- O que foi, amor?
- O menino me chamou de feia.
- Feia?
- É, feia. - disse chorosa.
- E você é feia?

Já não estava mais chorosa. Dessa vez, o olhar estava entre a dúvida do entendimento da pergunta e a indignação com a minha possível concordância.

- Não. Eu não sou feia!

Ela optara pela indignação. Me rio lembrando do beicinho vermelho, a cabeça baixa com os olhos lacrimejantes me encarando, clementes e desafiadores.

- Então?
- Então o quê, mamãe?
- O que te incomoda?
- Ele me chamou de FEIA! - mais indignação, dessa vez.
- E daí?

Agora ela estava pasma. Tomada pela revolta fria dos injustiçados, seu corpo imóvel tinha por animado apenas o vestido que balançava com a brisa.

- Mamãe?!
- Ué?! Você acabou de me dizer que não era feia.

Relaxou. Seus olhos desafiadores cederam lugar a dois outros duvidosos. Sacudia o pezinho torcido por trás do outro que a sustentava, enquanto as mãos se ocupavam da barra do vestido já arrependida de ter começado a conversa difícil.

- Duda, o que é feio?
- Eu... eu não sei, mamãe.
- Como assim não sabe? Você acabou de chegar aqui chateada porque alguém te chamou de feia, e você não sabe o que é?
- Não, mamãe. Eu sei o que é. Feio é quem faz algo que não pode.
- E você fez algo que não podia?
- Não.
- Então?
- Mas, mamãe, ele falou!
- E por que você concordou?

Ombros arqueados. Tadinha, estava vencida. Expliquei que o belo e o feio não existem, são decisões. Achamos belo e feio o que queremos achar, sem essa de convenção social. Disse-lhe que o importante era como o coração ficava antes, durante e, principalmente, depois de uma decisão. E foi com um abraço apertado puxando alguns fios do meu cabelo e um beijo adoçado de abóbora e coco que ela se despediu. Era domingo num bar em Santa Teresa, lá o samba flui até na alma de quem nunca sambou. Ele vai com copo numa mão, a outra no bolso e o pé que sobe e desce marcando o compasso.

Educar é muito difícil. Produzir conhecimento em outra cabeça que não a minha própria, respeitando o tempo (que pode ser eterno, principalmente em se tratando do meu relógio ansioso) dele entender o que você quer dizer, e reunir o que é preciso e só então poder decidir se quer ou não tomar uma atitude é muito angustiante. Graças a Deus Santa Teresa é cheia de bares. Quando o cinema mela, ainda dá para escrever em outro lugar.

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