23 julho 2012

Quando entrei em pânico

Rolou um pânico ainda há pouco. Sinto que estou no limiar entre o transtorno do pânico e a sanidade. Sinto nitidamente ele vindo, mas dessa vez consegui desviar. Será que um dia ele me acerta em cheio?


Estou sozinha. Estou sozinha nesse apartamento sem jardim. Estou sozinha. Estou sozinha em Paris.


O medo ia crescendo cada vez mais, sem perceber já havia comido e comprado mais do que devia e com o retorno à casa o pânico só fez aumentar.


Sozinha. Sozinha. Sozinha.


Como se isso fosse algum tipo de maldição. Na verdade foi uma maldição.


Cenário: Sala de cinema do Colégio Afonso Celso, 75 anos de existência.
Ano: 2003
Contexto: Filme Vidas Secas.


O Charada (um que estudava comigo), segura na minha mão e enquanto a acaricia diz: "Você vai morrer sozinha. Vai morrer sem ninguém. Você não dá valor a mim que te amo, então eu te digo, você vai ficar sozinha, sem ninguém."




Não chorei na frente dele, é claro. Chorei no banheiro. Sozinha.




Tem quase 10 anos isso. E ainda me assombra. Não pelo que ele disse, mas porque tem-se revelado verdade. Tenho certeza que é porque interiorizei o que ele disse e passei a provocar a minha própria solidão, mas o objeto em discussão não é esse. O objeto em questão é meu pânico, ou melhor, o que tirei dele.


- Por quê? Qual é o problema de ficar sozinha?
- Porque parece um estado permanente, parece que se eu ficar sozinha um minuto que seja, é isso! Maus pais vão morrer, eu nunca vou encontrar um marido que me ame e eu ame também, não vou ter filhos, nunca vou conseguir um emprego, não vou me realizar profissionalmente, vou ter vivido em vão! Não vou deixar marcar, legado, herança. Nada! Uma existência inteira desperdiçada comigo!


O interessante disso tudo, é que quando meu pânico passa, e continuo só, é um prazer imenso. Sempre arrumo o que fazer: consigo desfrutar de um bom livro, tomo um bom banho, brinco de me maquiar, arrumo armários, roupas, objetos, volto a criar historinhas. E, de repente, não existe Pai, Mãe, marido. Existo eu. E o prazer da minha própria companhia. Produzo textos, desenhos, comidas.


Meu psiquiatra disse que não tenho nenhum problema psiquiátrico, mas sim um problema de estruturação de pensamento, que é muito rígido, que cria regras e regras e explicações e rótulos, e quando tenta entrar neles adoece. Ele disse basicamente que tenho de relaxar.


Bom, vou olhar em outra direção que não a da minha mala desarrumada e caçar o que fazer. Sozinha.





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