26 novembro 2012

Cartas para Rafael: Estreitando a amizade virtual

Sabe o que você estava falando sobre como não se abre com ninguém, mas quando está com uma pessoa, apaixonado, você despeja tudo nela?

Eu tipo que faço algo assim, mas não é bem assim... eu faço tipo. Eu estava pensando nisso enquanto conversávamos ali na cozinha (sim, os meus diálogos imaginários se estendem além papel)... eu faço o tipo indefesa atrapalhada. hehehe Chega a ser ridículo. A primeira coisa que eu finjo ser é atrapalhada do tipo que não consegue resolver as coisas, que se subir na cadeira pra trocar uma lâmpada vai cair.. HAHAHAHA Eu?! Por favor!

Aí eu fiquei pensando: já que eu sigo um padrão com relação aos homens (acho que não deveria estar perdendo o meu tempo escrevendo sobre isso, mas...), qual seria a correlação desse meu comportamento com o padrão de insegurança, baixa auto-estima, suscetibilidade à criticas que eles apresentam?

Se alguma conversa acontecesse de verdade você poderia vir a se perguntar por que eu decidi conversar com você assim... mas a verdade é que como as conversas ao vivo não ocorrem, eu sublimo. Sublimação é quando você não pode ter algo que quer e troca por outra coisa pra compensar a ausência, entendeu? (eu queria explicar o que é sublimação para você, meu amigo virtual)  

Ah!!! Boas notícias! Eu conheci alguém que parece com você, mas que não é você!! Olha que legal!!! Ele é mega inteligente, muito mesmo! E passamos algumas horas teorizando sobre a vida, a sociedade, relações de poder, de dependência. Muito legal! O problema é que ele faz parte de uma pesquisa que estou fazendo daí essas questões pessoais não podem ser postas em nossas pautas discussionais. 

Tô lendo Foucault também. Microfísica do Poder. Tá dando uma depressão! Quando eu começo a pensar no que o cara sabe e que tudo que ele sabe ainda tem muito mais coisa alí... nossa! Fico pequenininha! Mas de alguma maneira eu acho que aquilo não é suficiente... que existe uma maneira mais fácil de viver e saber o que é certo e o que é errado sem ter de ler e estudar tanto... e é ai que eu preocupei um pouco com você. Eu não disse nada quando você me falou não... mas é meio patológica essa sua história de ser o trabalho a sua vida e sua vida o seu trabalho... essa história de você respirar e dormir e comer esses estudos mega complexos que você faz... isso daí, oh! Isso não é de Deus não! hehehe

Eu consigo ouvir você dizer: "É, mas eu não acredito em Deus"

Eu sei! Foi uma brincadeira! O que eu quero dizer é que... na verdade isso é algo que descobri essa semana... o que a gente sabe é muito importante sim. Mas o que fazemos conta mais. E eu preocupo um pouco com o que você tá fazendo com você. A gente veio ao mundo pra ser feliz e espalhar essa felicidade por aí. (a vantagem de conversar com você virtualmente é que nesse momento eu tenho certeza que você me interromperia e daria um discurso mega racional sobre como é possível eu dizer que viemos para ser felizes quando estão acontecendo coisas mega absurdas aí fora e que eu - assim como a maioria das pessoas - nem fica sabendo, mas que você como militante-mega-engajado-que-vive-para-isso sabe e se revolta. E ia me olhar com esse olhar que eu super acho que diz: "patricinha estúpida". E eu ia calar a boca porque me incomoda muito ser ofendida pelo seu olhar, mesmo que dentro da minha cabeça. Eu realmente não tenho como competir com você em discussões racionais. Você é muito mais racional que eu e tem um mestrado e agora um doutorado em explicações racionais para as ilogicidades da vida. E bom, eu sou só uma designer meio doidinha que curte psicologia, mas que não tem nenhuma formação concreta na área. Acho que foi por isso que eu passei a não conseguir mais conversar com você pessoalmente... com o tempo esse olhar seu passou a me acompanhar nas minhas declarações.. e eu fiquei meio inibida de dizer o que eu penso pra você. Acho que foi por isso que eu fiquei muito feliz de saber que cê tá fazendo terapia! De repente você aprende mais sobre os assuntos que eu falo e a gente consegue se entender) 

Entendo que acabou, que só será possível discutir mesmo na minha cabeça... mas é que eu fico achando que sinto muita falta (o que não deve ser verdade por que geralmente quando eu acho que sinto algo, é o contrário.. e meu coração nem enche mais quando te vejo... as vezes penso que devia deixar isso pra lá, mas volta e meia eu não consigo).

Bom, por enquanto eu gosto de conversar contigo por aqui.... Rafa, será que algum dia e alguma vez é possível alguém perder todos esses achismos sobre a outra pessoa e começar a confiar outra vez? Tipo, eu tenho vários achismos sobre você e sobre quem eu acho que você é... será que algum dia eu consigo perder esses achismos pra ver quem você é no lugar de quem eu tenho visto que você é? Entende? Eu tipo que já te pré-julgo e vejo isso... um cara que ficou mega intolerante, que tá levando a vida na ponta da faca, que não consegue ver a beleza que a ignorância traz e que as vezes em maneiras simples, não muito floreadas, o conhecimento chega. É só saber interpretar. Você é muito inteligente, e culto, e acadêmico... mas tá quase um direitista de esquerda. Arrogante. 

Tem alguma coisa sobre meninas que eu acho que você precisa entender também, mas aí já é me meter demais.

Não estou dizendo que não tenho as minhas coisas para mudar não.. mas é que achei que deveria te dizer isso aí que "falei"...












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