13 outubro 2013

Chaque pièce: Trois.

"Eu que não sei quase nada do mar, descobri que não sei nada de mim."


Sempre me descrevi como essa pessoa não impulsiva que faz as coisas devagar. A metáfora que eu usava era a de alguém que chega na beirada do lago, pisa na areia e volta para o deck para ponderar. Num outro dia eu chegaria mais perto, molharia o pé, e mais uma vez deck. Descrevia-me num processo longo de muitas idas e vindas, cada vez molhando uma parte maior do corpo até que mergulhasse a cabeça na água.

Que nada...

Meus momentos de angústia e experimentação são sempre marcados por excessos. Tenho certeza que a gordura, o açúcar e a nicotina contribuem para potencializar meu estado de crise, mas é sempre proposital. Eu já estava entupida, remexida e enojada, e mesmo assim acendi mais um. O mais perto que chego, mais me entupo. Nada de lago, é no oceano mesmo que me jogo. Vou caminhando mar adentro, molhando a roupa enquanto me nego o peso do jeans molhado, o frio e o medo. Cada passo que dou encontro novas justificativas criativas para dizer que na verdade não estou entrando e quando quiser posso sair, é só querer. Já tendo água pelo nariz, não conseguindo mais caminhar ou respirar, recuo. 

Busco, busco, busco. Breco e volto. Sentada na areia, tremo de frio e me obrigo a ver o sol nascer na praia. "Tem de haver algo bom nesse 'sofrimento' todo", penso. Sofrimento imposto que fique claro. 

Mas o que eu queria mesmo era me afogar. 





Chaque Pièce: Deux.

Teoria da Diferenciação dos Líquidos.


Amar é como uma cirurgia cardíaca; Urgente, inadiável e fundamental para se continuar vivo. 

Como numa cirurgia, para amar é necessário abrir-se ao meio. Corta-se o peito na direção do coração, o externo que permaneceu unido por uma vida inteira é serrado em dois e separado de maneira imensuravelmente dolorosa. Uma vez separados, tudo que te protege se foi, tudo que tens de vital se expõe. O interior aparece: líquido, frágil e precioso. Até que a dor passe, é impossível conhecer de polo a polo sua vastidão.

Vitais e necessários, assim são a cirurgia e o amor.

Amar é uma escolha. Abrir-se é uma opção, permanecer fechado também. Porém, como numa cirurgia tão importante quanto a do coração, uma hora que não dá mais para adiar. Ou nos abrimos, ou morremos. É isso, sem opção.

Conheci A. por acaso num bate-papo de celular. Ia tudo bem, então ele me trocou. Se eu estivesse fechada teria doído bastante, eu carregaria por uma vida inteira as marcas de uma ferida nada estética, mas eu estava aberta.

Na sala de cirurgia, enquanto eu ainda me encontrava anestesiada, ele entrou com álcool e fogo. Queimei de dentro para fora. Do outro lado, atrás do vidro grosso ele se desculpava, mas me assistiu arder até o fim. Sua passividade diante da minha agonia deixou uma queloide que não tenho mais como esconder.

Seu comportamento dissonante pode ser explicado pela Teoria da Diferenciação dos Líquidos. No primeiro, um copo ordinário com água, no segundo uma taça de ouro com esgoto dentro. Para olhos não treinados, a escolha do ouro parece óbvia. É ouro! Não é? Contudo, uma análise mais profunda nos permite compreender que 70 % do nosso corpo é água, substância química composta de hidrogênio e oxigênio, essencial (básica, crucial, elementar, fundamental) para todas as formas conhecidas de vida na Terra, inclusive a humana. Sem água não se vive. Sem água não se continua a viver. Já o ouro? Para que serve se não para pendurar no pescoço e sair por aí mostrando para todo mundo que se tem?



Nessa metáfora, a água vem representando as relações verdadeiras que nos compõe e mantém. Nenhum outro líquido pode desempenhar sua função vital na regulamentação do organismo. O ouro representa as relações passageiras, o belo rapaz que faz os seus ovários saltarem*, os olhos brilharem e você querer possuir. Para poder exibir depois, evidentemente.  




A questão é que a taça de ouro vem servida com esgoto. Esgoto este que será sorvido até a última gota se queremos desfilar com o metal brilhante por aí. São pessoas que têm forma e um conteúdo de merda para oferecer.



Ilogicamente natural que se faça essa troca, faz parte da vida. Faz, também, parte do pensamento moderno sempre nos mantermos disponíveis e desapegados para as "melhores oportunidades" que virão, são tantas, não? Esquecemos, entretanto, que a medida do valor das coisas está no quanto nos empenhamos para consegui-las. Em algum momento inexperientemente acreditamos que o ouro é mais valioso que a água, ou que a grama do vizinho é mais verde que a nossa e, curiosos, trocamos. Sucessivamente continuamos nesse processo, alguns por anos, outros por uma vida inteira. Mais uma vez, uma questão de escolha.

Zygmunt Bauman diz o seguinte em seu livro 44 Cartas Líquidas do Mundo Moderno: "Não há mais a necessidade de fazer a corte [...], é dispensável insinuar-se aos olhos dela ou dele e esperar um longo tempo, quiçá uma eternidade, para que todos esses esforços [os da conquista] deem resultados.
Tivessem elas [as pessoas] a possibilidade de examinar com atenção o que suas experiências propiciam, descobririam, para sua surpresa e frustração (embora tarde demais), que o romantismo, o lento e complicado processo de sedução que hoje só lhes é dado ler nos velhos livros, não significava obstáculos desnecessários, redundantes, cansativos e irritantes a bloquear o caminho para a 'coisa em si' (como os fizeram crer); estes são ingredientes importantes e até cruciais da própria 'coisa', aliás, de todas as coisas eróticas e sensuais, partes do charme atrativo." 

Eu-indivíduo achei uma Puta! duma sacanagem o que você fez comigo. Mas como ser humano achei louvável a sua atitude! Eu, por mim mesma, gostaria de ter ver sofrer. Minha vontade é dar com a sua cabeça na parede e te ver caído no chão em agonia tão intensa quanto a que senti. Eu ficaria ali, sentada fumando um cigarro, e assistindo de camarote você se contorcer como plástico pegando fogo na pele. Enquanto ser humano, te bato palmas de pé por ter tido uma vontade e culhões para ir atrás do que queria. Parabéns! 

Parece insano dizer isso, é aparentemente ilógico querer que você padeça e te parabenizar pela atitude que me fez sofrer. Porém, por favor entenda que na verdade essa aparente insanidade é justamente o que me define. Na contemporaneidade, em que todos seguimos tendências e nos empenhamos para comprar roupas, pagar o carro e manter a casa que permanece vazia enquanto trabalhamos para pagar por tudo isso e continuar nos enquadrando, você pôs um ponto fora da curva. Foi feio, foi escroto, mas verdadeiro. 

Ah! Se todas as pessoas fossem verdadeiras consigo mesmas...



* o grifo dos ovários é da Anna Hang, sexóloga empírica.  

01 outubro 2013

2A Fatinha

A boemia que começa desde pequeno e entranha na alma.


- O que foi, amor?
- O menino me chamou de feia.
- Feia?
- É, feia. - disse chorosa.
- E você é feia?

Já não estava mais chorosa. Dessa vez, o olhar estava entre a dúvida do entendimento da pergunta e a indignação com a minha possível concordância.

- Não. Eu não sou feia!

Ela optara pela indignação. Me rio lembrando do beicinho vermelho, a cabeça baixa com os olhos lacrimejantes me encarando, clementes e desafiadores.

- Então?
- Então o quê, mamãe?
- O que te incomoda?
- Ele me chamou de FEIA! - mais indignação, dessa vez.
- E daí?

Agora ela estava pasma. Tomada pela revolta fria dos injustiçados, seu corpo imóvel tinha por animado apenas o vestido que balançava com a brisa.

- Mamãe?!
- Ué?! Você acabou de me dizer que não era feia.

Relaxou. Seus olhos desafiadores cederam lugar a dois outros duvidosos. Sacudia o pezinho torcido por trás do outro que a sustentava, enquanto as mãos se ocupavam da barra do vestido já arrependida de ter começado a conversa difícil.

- Duda, o que é feio?
- Eu... eu não sei, mamãe.
- Como assim não sabe? Você acabou de chegar aqui chateada porque alguém te chamou de feia, e você não sabe o que é?
- Não, mamãe. Eu sei o que é. Feio é quem faz algo que não pode.
- E você fez algo que não podia?
- Não.
- Então?
- Mas, mamãe, ele falou!
- E por que você concordou?

Ombros arqueados. Tadinha, estava vencida. Expliquei que o belo e o feio não existem, são decisões. Achamos belo e feio o que queremos achar, sem essa de convenção social. Disse-lhe que o importante era como o coração ficava antes, durante e, principalmente, depois de uma decisão. E foi com um abraço apertado puxando alguns fios do meu cabelo e um beijo adoçado de abóbora e coco que ela se despediu. Era domingo num bar em Santa Teresa, lá o samba flui até na alma de quem nunca sambou. Ele vai com copo numa mão, a outra no bolso e o pé que sobe e desce marcando o compasso.

Educar é muito difícil. Produzir conhecimento em outra cabeça que não a minha própria, respeitando o tempo (que pode ser eterno, principalmente em se tratando do meu relógio ansioso) dele entender o que você quer dizer, e reunir o que é preciso e só então poder decidir se quer ou não tomar uma atitude é muito angustiante. Graças a Deus Santa Teresa é cheia de bares. Quando o cinema mela, ainda dá para escrever em outro lugar.