01 dezembro 2013

Olhos de Cão Azul: Eu e o todo


Tem 8 anos que evito sentimentos profundos. Há 8 anos, que não reconhecia como é ter tanto o que dizer, ter tanto em mim ao ponto de não existirem palavas ou imagens que o defina e ilustre. Sou tomada por sentimento profundo, que só pode ser visto de olhos fechados, ombros erguidos e peito expandido. Minha mente silencia, os sentimentos são como névoa baixa, amedrontadora, fria e prestes a se dissipar.

De olhos fechados, percebo uma ponte, percebo um abraço, olhos verdes que me encaram, e volto.

Troco a roupa, entro no carro. Meu corpo passa pelas ruas no automóvel que me guia. Não estou ali. Estou em um quarto amplo à meia luz, um tapete no centro dele. Sou invadida pelo toque de um pincel macio que percorre seu corpo nu. Sou também a mão que segura o pincel deslizante. Pescoço, peito, braços, a palma da mão. Quando chega aos dedos, o contato do pincel cessa para que comece o meu. Volto.

Meu corpo no quarto de pernas cruzadas com o laptop apoiado. A névoa passou, há apenas escuridão fria agora. Da ponte você se afasta, mas os verdes olhos continuam a me mirar de perto. Eles entram em mim e voltamos para o quarto, estendido no tapete seu corpo descansa enquanto encara minha silhueta caminhando contra luz em direção ao banheiro. "O que será que ela vai fazer?", você quer se perguntar, mas não há espaço para isso agora. Você de bruços, uma leve brisa, a chama da vela trepida, um pouco abaixo da panturrilha, um toque quente que sobe. Volto.

Domingo. Ouço ao fundo The Scientist. Como será para você amanhã? O trabalho é difícil, mas não desiste, por favor. Falta pouco. É terça-feira, caminhamos. Nos detemos, te envolvo e desejo sinceramente que persista no teu sonho. Volto.

"Já chega!", é o que digo. Mas meus olhos turvam, tenho o tapete sob meu corpo sentado, o cabelo pende sobre o ombro direito, sua mão o acompanha. No esquerdo está você que me cheira, nas costas seu tronco me toca. Agora a cintura. Com a bochecha sinto seu rosto, mas os olhos verdes se fecham e vão. O tapete não é mais o mesmo, a penumbra vira escuridão, só consigo ver a luz amarelada que sai do banheiro e penso: "Será que ele está ali?"

Imagino que sim e no tapete mesmo tento dormir.

"Me abraça", você diz.

Há 08 anos evito sentimentos profundos. Há muito tempo desconheço a verdade das impressões que vêm de dentro. Que desperdício.



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