Mãe,
Fiquei muito triste hoje, como tenho ficado há um tempo já.
Não estou contestando os benefícios que são concedidos ao meu irmão. Na verdade, acho que tudo que vocês dedicam a ele é mais que razoável, é plausível. Como eu vou dizer que ele não pode ficar com o carro que eu passei meses esperando para comprar? Ele tem uma criança pequena, o carro antigo dele está batido, ele depende do carro para trabalhar e ele tem dinheiro pra pagar, né? Eu teria de fazer um esforço e teria de parcelar.
Mas poxa! Nem tentar negociar? Nem um acordo do tipo: "Olha, enquanto o seu carro estiver no conserto, você usa essa que era da sua irmã já, mas quando ele ficar bom, você troca com ela." Nada? O que contesto é por que ele é tão melhor assim que eu ao ponto de merecer ficar com o carro sem discussões? Se o que fez tanta diferença assim que foi o dinheiro, ele ainda nem deu. Ele entregou o carro antigo dele pro meu pai consertar e se virar pra vender e receber o dinheiro. Se era para parcelar, eu teria feito também.
Concordo completamente que a Valentina, minha sobrinha, não pode ficar no prédio que eu e o meu irmão moramos tomando banho com água de poço. Ela é um bebê de 4 meses ainda, as coisas dela são esterilizadas, super justo que ela fique ai na sua casa usando o restante de água potável que temos, usando o seu quarto que é o único com ar condicionado na sua casa. Justíssimo! Certíssimo que ela fique ai juntos com o pai e a mãe dela. Mas será mesmo necessário que o meu irmão leve as chaves na sua ausência e me impeça de ficar aí também quando eles não estão, mas vocês estão? E mesmo quando estamos todos na sua casa, é mesmo necessário criar uma circunstância de segregação tão grande ao ponto de ninguém, se sentir a vontade de ficar no quarto com eles?
O telefone que eu briguei com vocês para ter e tive de por no meu nome para conseguir, mas quando peço para utilizá-lo... O Tiago vai precisar. O monitor para colocar no laptop para corrigir a minha postura e ajudar no tratamento da minha L.E.R... A minha cunhada já pediu. Ela está com a neném, né? Como que vou recusar?
Sabe, mãe, o que eu sinto é que ai não tem espaço pra mim. As minhas questões não são importantes, a minha dor física não é relevante e os meus questionamentos são dramas. Vocês são todos a respeito de dinheiro no banco e se os meus problemas não estão envoltos em algo que gere dinheiro ou que quero adquirir e preciso de um financiamento de vocês, não tenho os seus ouvidos.
Minha terapeuta sempre me questiona sobre o porquê de escrever no lugar de falar. De alguma maneira, essa página em branco me permite dizer o que penso sem interrupções para julgamentos. Ela me escuta, e era só disso que eu precisava mesmo: de ouvidos.
Essas são pequenas questões que vêm se repetindo desde sempre. Eu nunca tive mais que alguns minutos de estudo contigo porque o Tiago sempre foi agitado, relapso e preguiçoso no colégio. A imensa parte do tempo de estudo antes das provas era dele, porque "ele é assim mesmo e se não ficar no pé ele não passa de ano", né? Eu sei, é verdade. E eu entendi, e procurei ao máximo não te dar trabalho e estudar e conseguir por mim mesma. Eu procurei fazer tudo certo e aguardei pacientemente pelo aval de vocês para cada uma das minhas decisões. Eu fiz e esperei para ver se tinha feito bem, pra ganhar um "Muito bem", quem sabe...
Mas vocês se acostumaram com o egoísmo e a ingratidão do Tiago e é mais fácil pedir favores para mim, mesmo que isso me sobrecarregue e prejudique. É mais fácil aceitar que ele é assim mesmo e que não vai mudar. E eu sempre me sinto tão sozinha, tento que transformar carbono em confiança, estima e calma. É muito difícil afirmar para mim mesma a cada dificuldade que eu vou conseguir, que só preciso fazer alguma coisa que não tenho ideia do que é - e tão pouco a quem perguntar - que vai dar tudo certo. No início é assim mesmo, eu fico chorando no quarto enquanto tento me acalmar para pensar em como vou, eu, comigo mesma, dar um jeito no que quer que seja que está acontecendo.
E ai meu irmão me pergunta por que leio tanto. Mas é porque, de alguma maneira, essas pessoas que eu nem conheço e que estão tão longe de mim me compreendem e falam a mesma língua que eu.
Sempre quis que as pessoas, principalmente vocês, compreendessem e apoiassem quem eu sou. No entanto, no caminho da sua casa para a minha, pensei: "Sou uma mulher de quase 30 anos que está chorando porque a minha família não me compreende. Tem dó! Com essa idade já era para eu ter superado isso."
Não vou negar que fiquei no quarto chorando. Não vou mentir que precisei me acalmar. Mas ter dado tanto jeito em tanta coisa sozinha, fez com que eu aprendesse a me virar. E eu tenho certeza que vou, eu, comigo mesma, dar um jeito de acreditar em mim ao ponto de não precisar mais da compreensão e apoio de ninguém para tomar as minhas próprias decisões.
Faço o que poço para ser o mais verdadeira possível comigo e com todos. Me ama quem quiser, inclusive vocês, família.

Um comentário:
Filha você está certa mas tenha certeza que eu não estou preterindo ninguém. O Amor de mãe é plural.Você acha que não sofro também?As vezes não consterno minhas reações diante de fatos óbvios porque aprendi que saber ouvir é uma virtude e saber observar sem emitir comentários faz parte da boa educação, porém nada passa desapercebido aos olhos de uma mãe e quando não está ao alcance , dessa mãe,
em resolver os problemas que muitas vezes afligem aos seus filhos, só lhe resta a fé. Fé que tudo vai dar certo. Fé no potencial de cada um. Fé que o difícil não é impossível.E fé é certeza - Dias melhores virão -
Você é uma mulher adulta mas que nunca vai deixar de ser aquela menininha que eu gerei, amamentei, segurei na sua mão, lhe ensinei os caminhos que deveria andar e que estarei sempre à sua disposição, dentro das minhas poucas possibilidades, de braços abertos para te acalentar, te apoiar, te dar essa amor . Eu sei que parece muito pouco esse amor dividido em partes iguais com o seu irmão. Eu sei que você tem os seus anseios, planos e projetos, mas por favor nunca duvide do amor incondicional de uma mãe.
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