18 julho 2013

Só mais um Silva

Relato sobre a manipulação midiática dos protestos do dia 17 de julho de 2013 no Leblon, Rio de Janeiro.


 Não tenho como descrever minha perplexidade diante de tudo que tenho visto nesses últimos 02 meses, mais especialmente ainda a pouco na última edição do RJTV. Manipulação midiática, a transformação da indicação de uma rota de fuga (a ÚNICA possível no momento) ser transformada num comando à um novo destino de guerra. Lamentável.

Barricadas foram extremamente necessárias, o fogo do lixo era a única coisa que nos protegia do choque, foi a única coisa que nos protegeu do jato d'água. É revoltante sofrer tanta opressão, primeiramente ao meu direito de dizer, apenas dizer, que não concordo. Porque até por esse direito, depois de dois meses ainda estamos lutando! É revoltante pensar que tudo que passamos, todo o gás que aspiramos, todo o medo ao ter armas de fogo apontadas em nossas direções principalmente no memento que dispersamos e tentamos caminhar para casa, quase sermos atropeladas por motos do choque que ziguezagueam velozmente na calçada! Na calçada!

A mídia não contou sobre o policial civil à paisana que, sem se identificar, retirou à força uma menina do meio da manifestação e tentou arrastá-la por uma rua deserta com arma em punho. A mídia não mostrou que a polícia se omitiu durante o tão condenado quebra-quebra. Não moveram nenhuma palha, não, não! Ao contrário, reprimiram covardemente, nos acuaram, nos impediram de sair bloqueando todas as ruas e deixaram quebrar, colocar fogo. Por que será, né? A mídia não conta que o choque atacou primeiro, e nos acuou na esquina da pizzaria guanabara, mas mostra os Black Blocs revidando. Que seja lido bem: revidando, pois só revida o que é primeiramente atacado, e foi isso que aconteceu. Sem os Black Blocs lá, teria sido um massacre. Assim como na Pres. Vargas no 20 de junho, assim como sempre.

Sinceramente não sei de onde esse pessoal tira tanta coragem para resistir, mas acho que é a indignação somada ao ódio de ver tanta opressão. A polícia trabalha como segurança privada do governador, as conquistas dos outros estados são sistematicamente sufocadas. Em Porto Alegre já tem passe-livre, sabiam? Conquista nossa, povo.

Não concordo com quebra-quebra na mesma medida que não concordo com abusos de autoridade, com a supressão do direito de discordar, com a forma corrupta do governo, com as medidas ilmorais que ele usa para se manter. Dudu, Cabral, a Globo e todos os outros gigantes midiáticos querem isso: que você, amigo, pai, mãe, tio, que não vão às passeatas, e continue com seus direitos suprimidos como sempre foram e calados, acreditem que é só um bando de vândalos, crianças rebeldes, loucos.

Por favor, querem ver a realidade, acessem A Nova Democracia, Mídia NINJA RJ ou, a melhor opção, vem pra rua!

Agora, uma pergunta para fechar: E se você abrisse a boca agora e expressasse sua opinião, se dissesse do que não concorda, o que aconteceria? 


Segue minha versão dos fatos, em vídeo.













15 julho 2013

A semana

e seus dias, segundo eu

Esse post deve ser lido com música. Segue a trilha sonora que recomendo.



Decretei segunda-feira o dia da faxina aqui em casa. Duas horas por semana limpando e organizando a casa parece bom para mim.

Comecei a fazer a conta. Em uma semana de 168 horas:

02h/ sem para a faxina
36h/sem para o design
06h/sem para o estágio
06h/sem para a tradução voluntária
01h/sem na terapia
02h/sem na yoga
42h/ sem na cama (dormindo ou tentando)
14h/sem me deslocando

Sobra uma média de 8h/dia para usar como eu quiser. No que estou gastando as minhas horas?
Bom, ontem foram 5 horas entre sair do trabalho, ir ao cinema e voltar para casa. Considerando a 01 hora extra que fiquei esperado o segurança chegar e passei do horário no trabalho, a 01 hora antes de entrar no trabalho que cozinhei, organizei a bolsa e me arrumei, somados aos 30 min que levei para me maquiar antes do cinema e os 30 min entre chegar em casa do cinema, tomar banho, tirar a maquiagem, colocar o pijama e dormir. Bom. Foram-se as minhas 8 horas.

Fiz chá hoje. Devo ter perdido uns 15 minutos nisso.

De qualquer maneira, meu ponto não é esse. O que pensei mesmo foi: 

02h/ sem para a faxina
36h/sem para o design
06h/sem para o estágio
06h/sem para a tradução voluntária
01h/sem na terapia
02h/sem na yoga
42h/ sem na cama (dormindo ou tentando)
14h/sem me deslocando

e quantas para mim?

O chão da minha casa tem um horário reservado para ele (ao menos enquanto estou de férias heheh), mas eu não. Foi muito triste constatar isso.

Eu queria, assim, ter umas 2 horas por dia para mim para... 

Há também os momentos que levanto para, como agora, pegar chá e lembro que a segunda leva de roupas está pronta para ser estendida, e vou eu estender.

O dia está muito bonito hoje, esse sol amarelado com brisa fresca que só o inverno pós-aquecimento global pode proporcionar. Lembro da minha infância, o verão era fresco como o inverno é hoje.

De qualquer maneira há dois coqueiros na frente da minha varanda, é bonito quando o vento bate neles. Eu queria ter umas duas horas por semana para ver o vento batendo neles e eles suaves deslizando para um lado, para o outro, e teimosamente voltarem a sua posição original tão logo o vento cessa.

Lembro das tardes no terceiro ano do colégio. Estudava pela manhã e fazia cursinho pré-vestibular à noite. Ah, é! Foi aí que conheci o Rafael. A parte da tarde era livre. Chegava da escola, almoçava, por vezes (muitas vezes) lia, dormia, brincava de me maquiar. À noite, como já disse, estudava.

Sempre estudei muito. Uma amiga, Dani, que me fez ver isso pela primeira vez. Ela disse: "Nany, você está sempre estudando! Mesmo quando não é uma faculdade, agora é o francês, e antes foi a fotografia, e antes? O que foi?." Porra, não é que é verdade.

Gosto mesmo quando tenho tempo para deixar acontecer o que vai acontecer. Por exemplo, hoje estou de folga, já tinha na mente uma lista do que fazer:

1- 02 h para casa, afinal hoje é segunda.
2- 01h para o estágio
3 - 01h na tradução voluntária
4- 01h na yoga.

Se acordei às 10:22 e vou dormir por volta da 01 da manhã, isso me dá umas 13 horas e 

(banheiro e 02 ligações)

38 minutos livres.

Foram 2 horas e 38 minutos entre acordar, trocar de roupa, limpar a casa (2h), fazer a comida e almoçar.

01 hora aqui no computador escrevendo

Saldo de 10 horas. Mas já são 15:12. Que horas é o yoga, mesmo? Tem 16:00 e 19:00, qual das duas eu vou?

Se for na das 16:00 já tenho de começar a me arrumar para ir, levo 30 min até lá de bicicleta.

É... devo ir mesmo na das 19:00. Isso me dá mais umas 4 horas. Duas para o estágio e o voluntariado e 02 para mim. Parece bom.

Ah, é! Decretei a terça-feira como minha. É dia de psicóloga, salão, ler? Brincar de maquiagem? Talvez.

A quarta ou quinta-feira (um dos dois) é dedicada à militância. Afinal, de todos os meus, sou só eu. Não devo recuar.

Agora vou deixá-los livres para rir e reafirmar que sou louca e devo me tratar. Também amo vocês!











02 julho 2013

Cartas para Rafael: A Insustentável Leveza do Ser.

1

Milan Kundera começa seu livro assim:

"O eterno retorno é uma ideia misteriosa e, com ela, Nietzche pôs mitos filósofos em dificuldade: pensar que um dia tudo vai se repetir como foi vivido e que tal repetição ainda vai se repetir indefinidamente! O que significa esse mito insensato?
[...] a ideia do eterno retorno designa uma perspectiva em que as coisas não parecem ser como nós a conhecemos: elas aparecem para nós sem a circunstância atenuante de sua fugacidade. Com efeito, essa circunstância atenuante nos impede de pronunciar qualquer veredicto. Como condenar o que é efêmero?
[...] Se a Revolução Francesa devesse se repetir eternamente, a historiografia francesa se mostraria menos orgulhosa de Robespierre. Mas como ela trata de algo que não voltará, os anos sangrentos não passam de palavras, teorias, discussões[...]
[...] a profunda perversão moral é inerente a um mundo fundado essencialmente sobre a inexistência do retorno, pois nesse mundo tudo é perdoado por antecipação e tudo é, portanto, cinicamente permitido.

[...] No mundo do eterno retorno, cada gesto carrega o peso de uma responsabilidade insustentável. [...] nos esmaga, verga-nos, comprime-nos contra o chão. [...] é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da realização vital mais intensa. Quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida e mais real e verdadeira ela é."

O que Nietzche diz é que, quanto mais conscienciosos estamos dos nossos atos, quanto melhor podemos vê-los sem a máscara da permissividade, mais responsáveis nos sentimos. E é o peso dessa responsabilidade que é tão insustentável quanto necessário para nos manter próximos ao chão e à realidade. Precisamos entender a realidade para que possamos nos prender a ela.

Mais a frente ele diz o seguinte:

"Depois de quatro anos em Genebra, Sabina estava morando em Paris e não conseguia se refazer de sua melancolia. Se alguém lhe perguntasse o que tinha acontecido com ela, não saberia explicar.
O drama de uma vida sempre pode ser explicado pela metáfora do peso. Dizemos que temos um fardo nos ombros. Carregamos esse fardo, que suportamos ou não, lutamos com ele, perdemos ou ganhamos. O que precisamente aconteceu com Sabina? Nada. Deixara um homem porque quisera deixá-lo. Ele a perseguira depois disso? Quisera se vingar? Não. Seu drama não era o drama do peso, mas da leveza. O que se abatera sobre ela não era o fardo, mas a insustentável leveza do ser.
Até então, os momentos de traição a excitavam e a enchiam de alegria com a ideia de que uma nova estrada se abria diante dela e, no fim da estrada, uma outra aventura de traição. Mas o que aconteceria, se a viagem terminasse? É possível trair os pais, um marido, um amor, uma pátria, mas o que sobraria para trair quando não houvesse mais nem pais, nem marido, nem amor, nem pátria?"

2

Alguns meses depois de me mudar para este apartamento, senti vontade de ter um bichinho em casa. Sabia que teria de ser um já grandinho, saio pela manhã e regresso à noite. Como poderia cuidar de um filhote? Ele ficaria muito sozinho durante o dia todo, eu não teria como educá-lo. Acabaria abandonado.

Sempre que voltava da faculdade, um gatinho me esperava. Era um gatinho bonitinho, cinza com a ponta do rabo branca. Ele ficava miando e, quando eu descia do carro, fazia-lhe carícias que parecia apreciar. Ficava me olhando com o olhar convidativo e desconfiado dos que moram na rua e, eu por minha vez, o encarava com desejo e medo dos que tem lar. Um dia, trouxe-o para dentro, dei-lhe um banho, nossa! As pulgas saltavam! Decidi que seria um teste, ficaríamos juntos aquela noite e no dia seguinte, dependendo de como fosse, ficaria ou não com ele. Durante o banho só pensava na sujeira que ele estava fazendo, que já eram 23:30 e eu tinha de acordar cedo. Pensei nos gastos com veterinário, comida, banho, remédio, vacinas. Aterrorizei-me com o pensamento de que não mais poderia dormir fora, pois teria um gatinho para cuidar. E o areal cheio de coco? Deus! Como fede!

No dia seguinte, ao sair para o trabalho abri a porta, decidi que o deixaria escolher se queria ou não ficar. Ele se foi.

3

Desde terça-feira não olho para trás. Caminhei com passos firmes e largos decidida a não mais pensar, e não pensei. Tudo que veio depois foi resultado de um completo não-senso, foi efeito sem causa.  Sempre acreditei que era o peso, mas na verdade foi a leveza que me consumiu. Verti choro copioso sem qualquer causa aparente. Meu coração estava completamente apagado, era puro efeito físico que estampava o quê? Não se sabe. Ele pode ser explicado pela negação. Não era por estar ali, não havia surpresas, era terreno já conhecido. Não era por mim. Não era por ele. Não era por dor, era por um vazio em torno de mim. Uma leveza tão leve, insustentavelmente leve, a mais leve que já conheci.

4

Ele veio à minha casa. Entrou no meu apartamento. Na noite do banho fez questão de dormir ao meu lado apesar de ter sua cama montada no chão. Era um gatinho dos mais carinhosos, não podia tê-lo imaginado de melhor maneira. Ficou comigo a noite toda. É claro que me perturbou, evidentemente cagou meu box, acordou-me as 5 da manhã querendo sair, sujou meu travesseiro. Mas eu tinha dinheiro para cuidar. Deixei-o ir sem nem ao menos perguntar quanto me custaria o veterinário e o banho: R$ 70,00. Setenta reais eu podia pagar. Sair? Seria uma ótima desculpa para acordar no lar. Detesto dormir fora. Dei para ele a responsabilidade da decisão de ir ou ficar, como se ele estivesse em posição de decidir, era só um gato assustado. Foi por pura covardia que me eximi. Em pensar que numa outra manhã ele voltou e, mais uma vez covardemente, deixei-o escolher. E mais uma vez ele se foi, tornando definitivamente  insustentável a leveza do meu ser.


N.E.: Esse texto marca o final da seção de cartas para o Rafael.
N.E.2: Uma semana depois desse post, descobri que o gatinho tinha sido adotado pelo porteiro do meu prédio que se demitiu, homem de fibra ele. Já do Rafael, nunca mais soube.