02 julho 2013

Cartas para Rafael: A Insustentável Leveza do Ser.

1

Milan Kundera começa seu livro assim:

"O eterno retorno é uma ideia misteriosa e, com ela, Nietzche pôs mitos filósofos em dificuldade: pensar que um dia tudo vai se repetir como foi vivido e que tal repetição ainda vai se repetir indefinidamente! O que significa esse mito insensato?
[...] a ideia do eterno retorno designa uma perspectiva em que as coisas não parecem ser como nós a conhecemos: elas aparecem para nós sem a circunstância atenuante de sua fugacidade. Com efeito, essa circunstância atenuante nos impede de pronunciar qualquer veredicto. Como condenar o que é efêmero?
[...] Se a Revolução Francesa devesse se repetir eternamente, a historiografia francesa se mostraria menos orgulhosa de Robespierre. Mas como ela trata de algo que não voltará, os anos sangrentos não passam de palavras, teorias, discussões[...]
[...] a profunda perversão moral é inerente a um mundo fundado essencialmente sobre a inexistência do retorno, pois nesse mundo tudo é perdoado por antecipação e tudo é, portanto, cinicamente permitido.

[...] No mundo do eterno retorno, cada gesto carrega o peso de uma responsabilidade insustentável. [...] nos esmaga, verga-nos, comprime-nos contra o chão. [...] é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da realização vital mais intensa. Quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida e mais real e verdadeira ela é."

O que Nietzche diz é que, quanto mais conscienciosos estamos dos nossos atos, quanto melhor podemos vê-los sem a máscara da permissividade, mais responsáveis nos sentimos. E é o peso dessa responsabilidade que é tão insustentável quanto necessário para nos manter próximos ao chão e à realidade. Precisamos entender a realidade para que possamos nos prender a ela.

Mais a frente ele diz o seguinte:

"Depois de quatro anos em Genebra, Sabina estava morando em Paris e não conseguia se refazer de sua melancolia. Se alguém lhe perguntasse o que tinha acontecido com ela, não saberia explicar.
O drama de uma vida sempre pode ser explicado pela metáfora do peso. Dizemos que temos um fardo nos ombros. Carregamos esse fardo, que suportamos ou não, lutamos com ele, perdemos ou ganhamos. O que precisamente aconteceu com Sabina? Nada. Deixara um homem porque quisera deixá-lo. Ele a perseguira depois disso? Quisera se vingar? Não. Seu drama não era o drama do peso, mas da leveza. O que se abatera sobre ela não era o fardo, mas a insustentável leveza do ser.
Até então, os momentos de traição a excitavam e a enchiam de alegria com a ideia de que uma nova estrada se abria diante dela e, no fim da estrada, uma outra aventura de traição. Mas o que aconteceria, se a viagem terminasse? É possível trair os pais, um marido, um amor, uma pátria, mas o que sobraria para trair quando não houvesse mais nem pais, nem marido, nem amor, nem pátria?"

2

Alguns meses depois de me mudar para este apartamento, senti vontade de ter um bichinho em casa. Sabia que teria de ser um já grandinho, saio pela manhã e regresso à noite. Como poderia cuidar de um filhote? Ele ficaria muito sozinho durante o dia todo, eu não teria como educá-lo. Acabaria abandonado.

Sempre que voltava da faculdade, um gatinho me esperava. Era um gatinho bonitinho, cinza com a ponta do rabo branca. Ele ficava miando e, quando eu descia do carro, fazia-lhe carícias que parecia apreciar. Ficava me olhando com o olhar convidativo e desconfiado dos que moram na rua e, eu por minha vez, o encarava com desejo e medo dos que tem lar. Um dia, trouxe-o para dentro, dei-lhe um banho, nossa! As pulgas saltavam! Decidi que seria um teste, ficaríamos juntos aquela noite e no dia seguinte, dependendo de como fosse, ficaria ou não com ele. Durante o banho só pensava na sujeira que ele estava fazendo, que já eram 23:30 e eu tinha de acordar cedo. Pensei nos gastos com veterinário, comida, banho, remédio, vacinas. Aterrorizei-me com o pensamento de que não mais poderia dormir fora, pois teria um gatinho para cuidar. E o areal cheio de coco? Deus! Como fede!

No dia seguinte, ao sair para o trabalho abri a porta, decidi que o deixaria escolher se queria ou não ficar. Ele se foi.

3

Desde terça-feira não olho para trás. Caminhei com passos firmes e largos decidida a não mais pensar, e não pensei. Tudo que veio depois foi resultado de um completo não-senso, foi efeito sem causa.  Sempre acreditei que era o peso, mas na verdade foi a leveza que me consumiu. Verti choro copioso sem qualquer causa aparente. Meu coração estava completamente apagado, era puro efeito físico que estampava o quê? Não se sabe. Ele pode ser explicado pela negação. Não era por estar ali, não havia surpresas, era terreno já conhecido. Não era por mim. Não era por ele. Não era por dor, era por um vazio em torno de mim. Uma leveza tão leve, insustentavelmente leve, a mais leve que já conheci.

4

Ele veio à minha casa. Entrou no meu apartamento. Na noite do banho fez questão de dormir ao meu lado apesar de ter sua cama montada no chão. Era um gatinho dos mais carinhosos, não podia tê-lo imaginado de melhor maneira. Ficou comigo a noite toda. É claro que me perturbou, evidentemente cagou meu box, acordou-me as 5 da manhã querendo sair, sujou meu travesseiro. Mas eu tinha dinheiro para cuidar. Deixei-o ir sem nem ao menos perguntar quanto me custaria o veterinário e o banho: R$ 70,00. Setenta reais eu podia pagar. Sair? Seria uma ótima desculpa para acordar no lar. Detesto dormir fora. Dei para ele a responsabilidade da decisão de ir ou ficar, como se ele estivesse em posição de decidir, era só um gato assustado. Foi por pura covardia que me eximi. Em pensar que numa outra manhã ele voltou e, mais uma vez covardemente, deixei-o escolher. E mais uma vez ele se foi, tornando definitivamente  insustentável a leveza do meu ser.


N.E.: Esse texto marca o final da seção de cartas para o Rafael.
N.E.2: Uma semana depois desse post, descobri que o gatinho tinha sido adotado pelo porteiro do meu prédio que se demitiu, homem de fibra ele. Já do Rafael, nunca mais soube.


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