29 novembro 2013

Olhos de Cão Azul: Ruth x Raquel



21:38, nenhum cigarro ainda. Às 2:00 da manhã eu completo 24hrs. Eu sinceramente nunca me importei com a questão do cigarro. Tragar e expirar fumaça não é bem o que está em pauta, mas desde ontem às 2:00 da manhã até agora, Rutinha é quem está vencendo. 
Faço agora uma alusão a novela Mulheres de Areia, na qual havia duas irmãs gêmeas, Ruth e Raquel, sendo a Ruth a boazinha e a Raquel a malvada. 
Eu tenho essas duas dentro de mim. Uma me dizendo tudo que há de mal, reclamando atenção, diminuindo meus feitos, e outra, madura, de voz mansa, mas firme, me dizendo para não desistir.
A Raquel me fudeu ontem. Ela me disse: "Que mal há nisso!? Você não vai vê-lo mais mesmo!" 
Porra! Que mal há nisso!? Já é a segunda noite de sono parco e perturbado, e mais um dia que não produzo. Que mal há nisso!? Que mal há nisso!? 
Havia todo o mal do mundo.
Raquel é metida, quer toda a atenção. De luxo, não aceita o que tem valor verdadeiro, quer o que brilha e ofusca. Ela não queria L., ela o achava até bonzinho, mas só por fazer bem pra mim, já não estava prestando. Ela se alimenta do meu pesar, como um parasita alcoolito que depende do meu beber para se saciar, ela me estimula o vicio. Que mal há nisso!?, é o que me fala.
Comemoro agora o domínio de uma outra pessoa. Eu sempre achei que água e comida não se nega pra ninguém. Quantas vezes me neguei isso! E tantas outras mais foram as que enfiei goela abaixo qualquer tipo de porcaria só para dar um cala a boca no meu estômago, sem me preocupar minimamente em me nutrir. 
Comemoro agora um outro alguém no controle. Já disse que não é bem o cigarro que está em pauta, mas o mal que eu me faço. O cigarro só é mais um deles, e nem é o maior de todos.

L. disse que queria me conhecer. L. falou que queria me ver, enxergar como sou. Acho que ontem, L. se arrependeu. 

Eu sou uma pessoa boa, sabe!? Mas não sou perfeita. L. descobriu isso. Ele me perguntou, "Como vou confiar em você outra vez?" Eu pensei...

A imagem que me veio à mente foi a da arma do meu pai. Papai trabalhou a vida toda para a Secretaria de Segurança do Estado, a vida toda tivemos armas em casa. Eu sempre soube onde elas ficavam, e desde sempre soube que não era para mexer. Só que essa história de desde sempre não existe. Em algum ponto meus pais tiveram de me ensinar que eu não deveria brincar com aquilo, mamãe me contou certa vez como foi. 
Primeiro eles esperaram eu perguntar. Quando o armamento me despertou curiosidade pela primeira vez, eles me mostraram. Eu quis tocar, e eles deixaram. Meu pai descarregou a arma, e me mostrou como era. Eu segurei, vi que era pesada, e me interessei pelas coisinhas cumpridas que saíram do negocio que girava. Papai me explicou que eram balas e que entravam ali, assim, e pôs uma dentro. Eu queria saber mais, queria saber para que servia aquilo, e meus pais disseram. E eu entendi. 
Isso aconteceu algumas outras vezes conforme eu envelhecia, as minhas curiosidades variavam com a idade. E eles me explicavam, eu chegava perto, tocava e ouvia que era só quando eles estivessem perto e que em hipótese alguma eu deveria toca-lá só, porque eu poderia me ferir ou ferir alguém. Eles sempre me disseram aonde estava, e logo em seguida diziam que não era para tocar. E eu nunca toquei. Certa vez encontrei a arma de papai em nossa casa na serra. Eu procurava uma caneta num jarro em cima da estante, quando coloquei a mão, achei uma arma. No almoço contei o fato pro meu pai que negou ter deixado a arma lá, no lanche não a encontrei mais. Eu não tive a curiosidade de tocar, eu já tinha tocado. Eu já sabia que não era para mexer.

L. foi para uma boate com seus primos e amigos na semana passada, eu desejei que se divertisse e desfrutasse de seu tempo e fiz 3 considerações:

Não olhe para ninguém;
Se te olharem, desvie;
Se caminharem na sua direção, fuja;

L. precisa ver a arma, tocar, chegar perto, sentir o cheiro e ver que decidir usar pode até matar, e eu também.

22:31, sem cigarros, sem medos, me permitindo chegar perto da arma e ver, exatamente como ela é para desde sempre saber que não se deve mexer. 

Ruth está com orgulho de mim. Disse para não desistir, que é verdade que cometi um erro e vou ter de lidar com as consequências disso, mas que não é o fim, que posso me perdoar e tentar outra vez fazer melhor. 
Raquel me diz que ele vai me abandonar, que nunca vai me perdoar. 

O que L. fará foge da minha alçada. 

Interessante reconhecer isso, nesse processo todo senti muita dor, mas sofri pouco. Até nisso confio nele, sei que vai mesmo pensar e sei que será honesto avaliando o que passa dentro dele. Tenho ressalvas de que vai me ouvir, pode ser que me escute, mas não sei se assumirá pre-conceituosamente o que direi. Não sei se me julgará como parte interessada ou se se aproveitará de  minha habilidade de ver por fora mesmo quando estou dentro.

Raquel me mostra tudo que perdi com minha atitude. Mando-a a merda. Quem mandou causar esse transtorno todo!?

Ruth se abstém e pede que eu durma. Há o que resolverei somente amanhã, e há o que posso resolver agora. Meu corpo demanda cuidados, faz tempo que não durmo.  

Escolho ouvir Ruthinha. #tomaraquel desde ontem sem fumar!

19 novembro 2013

Chaque Pièce: Catre

A vida não permite rascunhos, tudo que fazemos já é viver. Entretanto, condescendente, a existência nos digna releituras: cada um conta sua história pelo ângulo que mais lhe convém. Pois digo eu que o leite que se espalha é parte do desajeito do meu viver, bem como o choro que verto é a maneira que encontrei de acompanhá-lo para que não se sinta só correndo pela mesa.

Eis minha versão dos fatos:

O presente que me trazes é compensação financeira pelo mal que me passou. Como a uma puta que não tem quaisquer obrigações de te ouvir na cama, mas por caridade te concede ao desabafo parte do tempo que seria dedicado ao coito, no fim, oferece gorda gorjeta em dinheiro. É assim esse presente; vazio de propósito e sentimento. Apenas uma tentativa não muito custosa, não muito onerosa de gratidão.Pois aceito! Não foi há muito que me dei conta que é isso mesmo que sou, prostituta da absolvição.

Entra. Usa. Esfrega na bunda e dá descarga. Até papel higiênico tem sua função, por que não teria eu a minha. Mas fica tranquilo, minha voz é mansa, minha fala é fácil. Você vai encontrar a bênção que queria. Vai me contar dos seus amores, vai me dizer quem eles são, como se vestem. E eu vou ouvir, vou concordar, te embalar.

Não sou dessas que se dá valor, se fosse cobraria mais pela foda. Qualquer piranha cobra pela hora, mas eu. Eu me alugo aos minutos. E veja você que há quem me contrate pelos 5 que restam antes do fim da função. Se fosse puta de conceito, estaria de ferrari, fendi, burberry, não é qualquer uma que vende e entrega o perdão.

Foi naquele filme que o magnata larga a perua escrota para ficar com a puta, mas isso daí é ilusão, e a minha acabou aos 15, no dia que fui violada. Fui penetrada aos poucos pela insistência latejante dos que sabem convencer. O riso e o sangue no final. Ele, triunfante, me segue há onze anos. Eu, sem valor, me dreno por nada, para qualquer um.

Mas agora cansei, vou mudar. Deixa o perfume aí do lado e me fode de quatro. Já deu essa história de beijar.

03 novembro 2013

...mesmo assim eu quero ficar com você.

Vi o filme do Fábio Porchat, Meu Passado me Condena, ao contrário das histórias de amor de cinema, no final ele fica com a esposa dele mesmo. Ele é infantil, pobre, atrapalhado, sem noção. Ele chata, rabugenta, séria, de luxo. Mesmo assim eles ficam juntos, e de alguma maneira essa história me pareceu mais crível que as hollywoodianas. O mocinho e a mocinha eram reais, com virtudes e defeitos, prós e contras, coisas com as quais o outro terá de aprender a lidar, e isso está muito mais próximo ao que encontramos no dia-a-dia do que o homem lindo, maravilhoso, destemido, protetor.

Lembro dos casais próximos com os quais convivo. Meu irmão, mesmo depois de casado, ainda tem medo de escuro. Quando éramos pequenos, para ir à cozinha, acendíamos as luzes da sala, do corredor e da cozinha, só para não ir no escuro. Ele continua o mesmo medroso de sempre, apesar de pagar as contas em dia, ser "o homem da casa". Meu pai é um frouxo quando o assunto é hospital. Nunca vi alguém passar mal só de pensar que vai ter de passar por lá. Nesse aspecto durona mesmo é a minha mãe, ela faz químio e toma todos os remédios. Pode ser injeção, amargo, demorado, não importa, ela vai. Confesso que nesse aspecto puxei papai, qualquer febre mais alta estou certa que é meu fim. Numa dessas terminei, só esse ano, umas 3 vezes já.   

Na minha história com A. já entendi que não devemos ficar juntos. Têm coisas que ele precisa aprender, melhor dizendo, tem o que ele quer viver, e eu não caibo lá. 

Contudo, passa que enquanto nos despedimos, na tentativa de encontrarmos um jeito de romper sem ter de se afastar, vou aprendendo sobre essas gostosuras do "se relacionar". Sou dessas de sentimentos lentos, escuto algo hoje que só me dói daqui dois dias, como foi o caso da garota no bar. 

Em 2013, não tenho mais teorias sobre o amor. Entretanto, aventurando-me pelo desconhecido, diria que o amor de verdade é diferente desses da tela de cinema. O amor da vida real é composto pelo agrupamento infinito de paradoxos cotidianos colados com "...mas mesmo assim eu quero ficar com você".