A vida não permite rascunhos, tudo que fazemos já é viver. Entretanto, condescendente, a existência nos digna releituras: cada um conta sua história pelo ângulo que mais lhe convém. Pois digo eu que o leite que se espalha é parte do desajeito do meu viver, bem como o choro que verto é a maneira que encontrei de acompanhá-lo para que não se sinta só correndo pela mesa.
Eis minha versão dos fatos:
O presente que me trazes é compensação financeira pelo mal que me passou. Como a uma puta que não tem quaisquer obrigações de te ouvir na cama, mas por caridade te concede ao desabafo parte do tempo que seria dedicado ao coito, no fim, oferece gorda gorjeta em dinheiro. É assim esse presente; vazio de propósito e sentimento. Apenas uma tentativa não muito custosa, não muito onerosa de gratidão.Pois aceito! Não foi há muito que me dei conta que é isso mesmo que sou, prostituta da absolvição.
Entra. Usa. Esfrega na bunda e dá descarga. Até papel higiênico tem sua função, por que não teria eu a minha. Mas fica tranquilo, minha voz é mansa, minha fala é fácil. Você vai encontrar a bênção que queria. Vai me contar dos seus amores, vai me dizer quem eles são, como se vestem. E eu vou ouvir, vou concordar, te embalar.
Não sou dessas que se dá valor, se fosse cobraria mais pela foda. Qualquer piranha cobra pela hora, mas eu. Eu me alugo aos minutos. E veja você que há quem me contrate pelos 5 que restam antes do fim da função. Se fosse puta de conceito, estaria de ferrari, fendi, burberry, não é qualquer uma que vende e entrega o perdão.
Foi naquele filme que o magnata larga a perua escrota para ficar com a puta, mas isso daí é ilusão, e a minha acabou aos 15, no dia que fui violada. Fui penetrada aos poucos pela insistência latejante dos que sabem convencer. O riso e o sangue no final. Ele, triunfante, me segue há onze anos. Eu, sem valor, me dreno por nada, para qualquer um.
Mas agora cansei, vou mudar. Deixa o perfume aí do lado e me fode de quatro. Já deu essa história de beijar.
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