Eu estou compulsiva. Tudo que eu faço, faço muito. Se fumo, fumo muito. Se começo a beber, só paro quando estou completamente alterada ou o dia já raiou, o que vier primeiro. E isso me assusta.
Estava tentando entender como funciona esse mecanismo da compulsão para ver se consigo de alguma maneira, diferente do auto controle extremo, resolver este problema. Na verdade o que ocorre é que estabeleço padrões. Crio verdades e assumo que estas são incontestáveis. Como por exemplo: Quando as pessoas jovens saem para se divertir elas bebem. E como eu não aprecio o sabor do álcool, devo apreciar a segunda etapa da bebedeira. A embriaguês. Logo, bebo muito, de preferência com o estômago vazio para que fique bêbada mais rápido e o gosto ruim do alcool passe e eu possa beber mais e ficar mais bêbada e me divertir mais.
Não sei bem quando e como essa verdade absoluta se instalou na minha mente. Mas sei que, de alguma maneira, a todo instante reafirmo e a calcifico. Por mais que eu saiba, veja e viva melhor trancada no meu quarto escrevendo nos sábados a noite. Basta sair com pessoas jovens que a máxima "Quando as pessoas jovens saem para se divertir elas bebem" não me deixa curtir enquanto não assumo a postura padrão.
Mas por que isso? Em que ponto tornei essa, uma verdade incontrestável? Que há grande influência da mídia e das pessoas para reforçar esse tipo de pensamente, já é sabido. No entanto, sinto que a força que mantém este pensamente claro e ativo vem de dentro de mim.
O que questiono é essa tendência a estabelecer padrões e formas - muitas vezes ilógicos - e me dedicar, doar, obrigar e buscar com todas as forças cumpri-las. Como quando decidi que deveria ser uma pessoa perfeita. Inteligente. Séria. Acertiva. Culta. Justa. Bondosa. Divertida. Correta. Íntegra.
Decidi que jamais poderia ser vista como uma pirainha de classe média, estúpida, mal intencionada, falsa ou interesseira.
Criei o ser humano perfeito. Decidi como ela deveria agir e pensar. E busquei em cada uma das minhas atitudes tornar-me ela.
Em que ponto criei esse hábito? O que aconteceu para que eu estabelecesse essa linha de raciocínio? Que tenho uma personalidade que colabora para esse padrão já sei. Mas entendam que o problema, não é beber, fumar ou tentar ser um ser humano melhor. O problema são os padrões. A obrigatoriedade de segui-los. É como se eu tivesse desenhado uma forma, e depois todas as vezes que me deparo com a situação já não fosse mais dotada da capacidade de pensar. Há percepção e ação, sem reflexão. Simplesmente sigo a receitinha do bolo. Coloco na forma e as atitudes já são programadas. E continuo agindo da maneira esperada. Mesmo quando não é o que quero. Mesmo quando não me sinto mais feliz com aquilo. Mesmo quando estou me prejuducando. Não paro. Continuo fazendo, e fazendo e fazendo.
Como posso mudar isso?
A resposta óbvia seria: Estabelecer novos padrões. Mas os antigos padrões estão muito interiorizados, na verdade parecem parte de um mesmo corpo, mas não como braço e tronco, mas sim como células cancerosas e sangue.
Engraçado é que há 4 anos atrás eu acreditava que não era ninguém. Hoje, não sei mais se considero essa hipótese possível - sempre somos alguém. Podemos não ter a menor consciência de quem somos efetivamente, porém sempre somos alguém -, e descobri que sou alguém sim. Só que sou alguém que não me agrada. E preciso pegar todos as formas que não servem mais, jogar fora e resomeçar. All over again.
Estou com medo de apenas estabelecer novos padrões a serem seguidos e cair no mesmo erro de antes. Mas aí eu lembro de um curso que fiz e nele me disseram que o medo vem da ignorância. Quando a gente aprende mais sobre aquilo que nos amedronta o medo diminui.
Preciso de conhecimento. Alguem se habilita?
Nenhum comentário:
Postar um comentário