11 janeiro 2011

Cartas para Rafael: Oi Rafa.

Rio de Janeiro, 28 de novembro de 2010.

Oi Rafa,

O que tá me matando é achar que nunca vou ouvir o que passa aí dentro.

Não sentir mais o coração ficar quentinho e transbordar quando te via.

Sentir seu corpo magro sendo esmagado por mim. E você meio sem jeito. De um jeito pela metade que é todo seu.

Foram os anos que passaram e eu não percebi que, na verdade, ser receptivo, e lembrar de tudo que foi dito não significam necessariamente conexão. Muito menos interação. Reciprocidade.

Não ter notado que quem ligava era eu. Quem procurava era eu. Que da sua parte já havia acabado há anos.

Um misto de traição e culpa. Por não ter ouvido de você o mal te fiz pra fazer você se afastar. E se não fiz nada, o que te deu o direito de tirar meu direito de me importar? E principalmente por não ter tido maturidade suficiente para perceber o que estava acontecendo e para onde estávamos caminhando.

Dor por pensar em você agora e meu coração ficar apertado.

Vergonha e raiva por não ter gritado o tanto que eu queria nem ter te socado até doer.

Tristeza e confusão. Por estar com o coração apertado e ferido e não ter conseguido chorar. Logo eu.

Mais tristeza ainda por achar que nunca vou conseguir saber.

Desolada por acreditar que não sou especial para você. Não mais.

Ansiedade por pensar que o que passa aí dentro não vai agradar meus ouvidos. Muito menos satisfazer meu ego.


Medo por ser isso ou não ser nada. E não ser nada.

Certeza de que todas as verdades são apenas velhos clichês. As mentiras é que conseguem, às vezes, ser originais. E que prefiro uma verdade/clichê que doa a uma mentira que mate. De que não será saboroso. Mas bom.

Estou com ódio por estar passando por tudo isso. Por estar escrevendo este e-mail. Por não conseguir meter a mão dentro da porra do peito e arrancar você sem tirar o meu coração junto.

Porque em verdade eu não quero. Eu não sou de morrer assim. De uma vez. As coisas vão minguando. Diminuindo. Decepcionando. Até que um dia, quando eu vou procurar elas não estão mais lá.

Que os dias vão passar, e o buraco com o cofre que te leva vai afundando, afundando até eu olhar pra você e não sentir mais nada.

Eu confio. Infelizmente não mais na amizade. Mas no caráter. Na integridade que sei que estão contigo aonde quer que você vá. Então eu te peço que você diga o que tá passando aí dentro.

Mesmo que você a tenha dito. Repita. Como um último gesto de amizade. Repita. Pois não to conseguindo seguir em frente. E não gostaria mesmo de deixar enterrar alguém que ainda está vivo.

Ouvir que você não queria ficar comigo doeu. Foi chato, mas tudo bem. Get over it.

O problema foram os sentimentos que vieram depois disso e que não tinham muito a ver com isso.

O problema foi hesitar em te dizer algo. Pra você!

O problema são as horas de sono que ainda não tive.

O problema foi não ter sido completamente honesta. E ter de enfrentar a honestidade ou, ainda pior, o silêncio alheio.

Eu não tenho mais confiança de que você não vai me magoar. Eu não sei mais em quem você se tornou, e nem se o que eu sinto é por você mesmo ou por alguém que já não existe mais.

Eu só queria a chance de enxergar. E o direito de decidir se vale a pena continuar sentindo ou se é melhor só lembrar. A chance de poder ajudar. Logo você que eu sempre gostei tanto. Logo você, que eu sempre gostei tanto.

Entendo que você queira e precise viver situações para se encontrar. Mas é que ta muito difícil de aceitar que pra isso eu e você não possa mais existir.

Eu sei que estou te pressionando. Mas não se preocupe, pois não se tornará uma constante entre nós.

E agora? Agora sim.

Abraço-te carinhosamente, com todo o amor e e parte da dor que há em mim.

Nany.

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