30 agosto 2013

Chaque Pièce: Un.

Do céu ao inferno no espaço de uma semana, por Nany Pereira


Impressionante como se pode estar no céu, descer ao inferno, deitar-se com o capeta e ainda assim entendê-lo.

Não vou julgar se e quando será minha hora de ser feliz. (Será que existe uma hora para a felicidade?)

Estive radiante por um tempo.

O céu tem por cenário apartamento alto de frente para o mar. Botões... primeiro um, depois o outro. A camiseta desliza lentamente pelos ombros flertivos que se revelam nus. Suaves. Caminhamos vagarosos pelas nuvens fofas. Nele, o pecado original ainda não aconteceu, a nudez é natural. Própria. Envoltos na atmosfera celestial, refletidos no espelho os corpos são curvas perfeitas, sinuosas e convidativas. No paraíso ficamos unidos por um canal que se abre diretamente do coração, e como gravidade somos puxados um para o outro. Rosa, verde e amarelo com nuances de laranja, essa é a cor do amor lá em cima. Quem olha bem fundo, olho no olho, vive o que o outro sente. Olhando nos olhos, escuta-se com a alma o que o outro pensa. No céu as pontas dos dedos são sensores, demarcadores deslizantes que conquistam centímetro a centímetro a geografia do indivíduo. Lá o tic-tac do tempo bate junto, o meu e o seu. Sincronizados. As manhãs são extensas em cama grande. Os dias não acabam, possuem a luz eterna do final da tarde. Somos brilho.  

Anjo caído.

Uma mensagem e volto ao chão, para descer um pouco mais logo em seguida. Penetrando solo abaixo, é loucura dizer que tanta dor vale a pena. Desfragmento-me pelo caminho, a primeira hora me acerta com uma forte pancada no ombro esquerdo que cai. A segunda e a terceira abrem uma cova que me rasga do pescoço ao ventre. As horas subsequentes trabalham para extrair o que um dia existiu dentro de mim, usurpar-me. Oca. O buraco negro que se abriu um pouco abaixo de onde antes era pura gravidade me suga. Pleno de espaços parcamente preenchidos por dois maços, o inferno é uma cova de lodo fedido. Lá, o SUS também montou filial, e o demônio fez questão de me fazer esperar pelo remédio de esclarecimentos que eu tanto precisava para melhorar. Não foi em uma fração de segundos que desci. Na verdade, a viagem durou um dia inteiro, de onze da manhã às nove da noite, quando o capeta encontrou espaço na sua agenda para me atender. Conversamos. Num espaço comum, do lado de fora do que um dia fui eu e você, ele podia me entender.

Terra.

Um outro tipo de força me empurra à superfície. Instantaneamente os reconheço! São fios que me envolvem por inteira, coloridos. Vivazes. Meus amigos, meus pais. Descanso em braços confortáveis. A cama é pequenina com dois gatinhos manhosos fazendo bolinha para dormir e se esquentar. Mansidão.

Fui, eterna. Hoje, oscilo.  

 




25 agosto 2013

Processo Criativo

O processo criativo, meu amor e um caderno de uma professora escrota.


Interessante que todo processo criativo começa em mim numa pequena vontade. Tenho de fazer esse scrapbook para a aula de Inovação e Criatividade. A professora é uma merda, já no primeiro dia me disse que eu não poderia falar palavrão! Que porra é essa? Como vou me expressar com minha fala tolida?

De qualquer maneria aceitei o desafio, um pouco antes da aula começar vi um menino no pátio pintando em aquarela, ele tinha um caderninho de folha boa e pintava nele. Comprei um igual. Interessante que, as dúvidas que normalmente me assombram ao tomar uma decisão, se esvanecem em momentos como esse. Que momentos são esse? Bom, são esses momentos que você precisa comprar um caderno para uma aula irada de uma professora escrota, que está revoltada porque o único lugar o tem disponível para venda é a papelaria da faculdade por R$ 13,00 caros reais, e aí você entra, puta com o preço e vê. Aquele caderninho, preto, sem graça com folhas lindas para aquarela que o menino no pátio estava usando e decide comprá-lo pelo dobro do preço e fica feliz!

O momento que pospõe a vontade é um momento de medo. Olho para o caderno, ele olha para mim. Abro, fecho, folheio. Tenho uma ideia boa para a capa. Desconsidero-a. Tenho outra, inviável. Acho que não vou conseguir, penso em desistir. Desisto.

Mas a porra do trabalho é para quarta. E aí sinto aquela vontadezinha outra vez...

Assim meio às cegas vou à papelaria, munida do caderno preto e de uma pequena vontade: queria que o caderno fosse sobre o amor. 

O amor é em aquarela, isso sem dúvidas! A paixão em grafite/jet e a depressão em óleo. Ele é simples, linear. Tinha de ter uma imagem que o valesse também, algo suave, livre. Ah! O amor é rosa, ao menos o meu o é. Rosa chá, nada de rosa choque, rosa choque é a paixão aos 15. Precisava pensar nos termos práticos também; a capa do caderno não permitiria o uso de cola ou fita dupla-face, como iria colar isso? Como iria encapar esse caderno preto sem graça nenhuma, com aquela linda folha super especial de aquarela de um bloco de R$ 60,00? Pois é, paga-se R$ 60,00 por um bloco de 10, 20 (?) folhas boas. Mas vale a pena! São folhas lindas com umas nervurinhas verticais, tão paralelas, tão suaves, tão preparadas para a água! Precisava pensar! Como seria o acabamento? A aquarela deveria ser protegida! Contact foi a saída mais fácil... tirou um pouco da leveza, atribuiu um brilho não natural ao fim, mas fazer o quê? Era o que tinha... 

Assim, cheia de pequenas vontades, entrei e comprei o que me tocava. Tudo que me ligava ao amor e podia ser útil e aplicável ao meu caderno, levei. Mais um bom motivo para artista ser rico, seguir o coração custa caro. 

Voltei à casa com uma sacola repleta do que possivelmente precisaria. Possivelmente... premonição como custa caro antever! De qualquer maneira, já tendo uma pequena ideia de que meu caderno seria rosa, com um toque de marrom, fui em busca da capa perfeita. Na minha biblioteca de imagens interessantes fui passando uma a uma assim, bem rápido para que meu subconsciente decidisse qual a ideal. Encontrei. Era a imagem de um muro de tijolos que se expandia e transformava em galhos com um passarinho na ponta. Perfeito! Afinal, no amor começo rígida, concreta e vou me transformando em vida, até que voo. Muito bom! (ao menos acho que é assim!)

Carreguei a sacola por 2 dias. Depois que decidi o desenho, assim que cheguei em casa dei cabo dele,. Cortei o papel de 60 na medida exata da capa (que futuramente se revelou não tão exata assim e tive de improvisar... mas tudo bem, no amor é assim mesmo. As vezes nos deparamos com algo inesperado. Tudo de acordo, tudo na mesma sintonia. Assim que sabemos que está dando certo!). Levei-o para o trabalho, separei mais algumas coisas que precisaria. O final mesmo, ou seja, a montagem seria feita na facul em condições adversas. Sim, pois é terrível criar fora do ateliê.

Já na faculdade morri de medo pela segunda vez quando comecei a colar a capa. E se ficar uma merda, pensava. Mas com medo mesmo fui. O prazo estava acabando, a entrega era no dia seguinte. À parte a folha do desenho que ficou uns 7mm menor do que o esperado, tudo correu bem. Era um misto de nervosismo e excitação: cada etapa concluída um alívio e aquele orgulho de mãe quando olha um filho seu fazendo algo sozinho. Sozinho, sim, porque para mim o caderno construiu a si mesmo. Tudo que fiz foi às cegas, ele que me guiava dizendo por impressões e sentimentos como queria nascer.

Juntei umas rosas à contra capa, adicionei um pouco de tinta, colei o contact e bum! Ele estava pronto. Nasceu, eu dizia! Opa, faltou o detalhe da fita! Ah! Tudo bem! Eu coloco amanhã!

Deu tudo certo, o caderno ficou lindo! E eu assim toda boba, decidi escrever sobre ele. Meu amor em forma de caderno.








14 agosto 2013

Coação!

Quando os argumentos acabam, a coação supera o bom-senso e ocorrem baixas por um pudim que não deu certo. 



- Fui Coagida agora!
- Como assim?
-  Pois veja você que estava eu passando em frente da casa do pão de queijo quando um cookie me sorriu. Prontamente resisti, afinal havia um pudim diet na geladeira me esperando. Chego de volta ao trabalho e descubro que no pudim deu água. ÁGUA! Aí ficou difícil! Sem saída tive de comer o cookie! Um ultraje desse pudim se abster da missão de ser devorado por mim como se fosse um torrão de açúcar! Sobrou pro coitado do cookie dar cabo da minha ânsia por doces! Pobre cookie. Pobre, pobre!

Sabe que se eu não fosse dessas justas, teria liquidado também uns palitinhos de biscoito com creme de avelã dentro! Foi por pouco, muito pouco.

Edivaldo

Há quem diga que tudo acontece por um motivo. Há quem discorde. 


Passei a semana inteira me perguntando porquê seria eu a única funcionária da empresa a trabalhar no dia dos pais. A resposta não tardou a chegar.
Passei a tarde de hoje com o Edivaldo, o segurança do plantão de hoje na loja. Edivaldo é casado com a Nete, com quem tem o Eric e a Ana Beatriz. É pai também da Rayane e do Ricsson, mas estes são seus filhos do primeiro casamento e já são mais velhos. Rayane trabalha para a Petrobrás e o Ricsson vai fazer prova para o batalhão de operações especiais (BOPE), que Deus o guarde!
Edivaldo me fez chorar como um bebê, no dia de hoje. Não só porque ele é pai e me deu a oportunidade de ver como os pais babam quando falam dos filhos, não só porque tem doze irmãos e uma história de vida de muito trabalho, ele me emocionou pelo que não se pode dizer.
Chegou assim meio cabisbaixo, e eu que não sou muito de conversas com estranhos, no meu canto fiquei. Mas tinha algo naquele homem que chamava para ser ouvido. Foi mais que ver a angústia dele. Senti. Como há algum tempo não sentia por ninguém. Confesso que levantei para chorar no banheiro. Até que ele mesmo chorou na minha frente ao que aguentei firme, afinal, já era suficientemente constrangedor um de nós chorar, imaginem os dois?

Ele tá pra sair do emprego regular que tem, trabalhou 25 anos, mas depois que o dono da empresa faleceu e os herdeiros assumiram, as coisas mudaram. Ele disse.
Edivaldo precisava de uma palavra de ânimo. Disse-me mais de uma vez que sempre ajudou as pessoas sem querer nada em troca, e acabou por receber desagrados de volta. Ele sabe que a vida é assim mesmo, fazemos o bem aqui e é lá na frente, muitas vezes pelas mãos de outras pessoas que nem imaginamos, que somos ajudados. Edivaldo foi hoje ajudado. Passei o telefone de uma advogada amiga minha, é à contragosto que provavelmente moverá contra o filho do seu falecido patrão um processo. Edivaldo foi ouvido e me agradeceu. Morri de vergonha. Morri de chorar.
Edivaldo é um homem bom, dava para perceber assim só de olhar, mas o melhor de tudo hoje foi pensar que o bem mesmo, é esse que a gente faz na rua, na hora que a oportunidade passa. Há quem diga que tudo acontece por um motivo. Há quem discorde.