O processo criativo, meu amor e um caderno de uma professora escrota.
Interessante que todo processo criativo começa em mim numa pequena vontade. Tenho de fazer esse scrapbook para a aula de Inovação e Criatividade. A professora é uma merda, já no primeiro dia me disse que eu não poderia falar palavrão! Que porra é essa? Como vou me expressar com minha fala tolida?
De qualquer maneria aceitei o desafio, um pouco antes da aula começar vi um menino no pátio pintando em aquarela, ele tinha um caderninho de folha boa e pintava nele. Comprei um igual. Interessante que, as dúvidas que normalmente me assombram ao tomar uma decisão, se esvanecem em momentos como esse. Que momentos são esse? Bom, são esses momentos que você precisa comprar um caderno para uma aula irada de uma professora escrota, que está revoltada porque o único lugar o tem disponível para venda é a papelaria da faculdade por R$ 13,00 caros reais, e aí você entra, puta com o preço e vê. Aquele caderninho, preto, sem graça com folhas lindas para aquarela que o menino no pátio estava usando e decide comprá-lo pelo dobro do preço e fica feliz!
O momento que pospõe a vontade é um momento de medo. Olho para o caderno, ele olha para mim. Abro, fecho, folheio. Tenho uma ideia boa para a capa. Desconsidero-a. Tenho outra, inviável. Acho que não vou conseguir, penso em desistir. Desisto.
Mas a porra do trabalho é para quarta. E aí sinto aquela vontadezinha outra vez...
Assim meio às cegas vou à papelaria, munida do caderno preto e de uma pequena vontade: queria que o caderno fosse sobre o amor.
O amor é em aquarela, isso sem dúvidas! A paixão em grafite/jet e a depressão em óleo. Ele é simples, linear. Tinha de ter uma imagem que o valesse também, algo suave, livre. Ah! O amor é rosa, ao menos o meu o é. Rosa chá, nada de rosa choque, rosa choque é a paixão aos 15. Precisava pensar nos termos práticos também; a capa do caderno não permitiria o uso de cola ou fita dupla-face, como iria colar isso? Como iria encapar esse caderno preto sem graça nenhuma, com aquela linda folha super especial de aquarela de um bloco de R$ 60,00? Pois é, paga-se R$ 60,00 por um bloco de 10, 20 (?) folhas boas. Mas vale a pena! São folhas lindas com umas nervurinhas verticais, tão paralelas, tão suaves, tão preparadas para a água! Precisava pensar! Como seria o acabamento? A aquarela deveria ser protegida! Contact foi a saída mais fácil... tirou um pouco da leveza, atribuiu um brilho não natural ao fim, mas fazer o quê? Era o que tinha...
Assim, cheia de pequenas vontades, entrei e comprei o que me tocava. Tudo que me ligava ao amor e podia ser útil e aplicável ao meu caderno, levei. Mais um bom motivo para artista ser rico, seguir o coração custa caro.
Voltei à casa com uma sacola repleta do que possivelmente precisaria. Possivelmente... premonição como custa caro antever! De qualquer maneira, já tendo uma pequena ideia de que meu caderno seria rosa, com um toque de marrom, fui em busca da capa perfeita. Na minha biblioteca de imagens interessantes fui passando uma a uma assim, bem rápido para que meu subconsciente decidisse qual a ideal. Encontrei. Era a imagem de um muro de tijolos que se expandia e transformava em galhos com um passarinho na ponta. Perfeito! Afinal, no amor começo rígida, concreta e vou me transformando em vida, até que voo. Muito bom! (ao menos acho que é assim!)
Carreguei a sacola por 2 dias. Depois que decidi o desenho, assim que cheguei em casa dei cabo dele,. Cortei o papel de 60 na medida exata da capa (que futuramente se revelou não tão exata assim e tive de improvisar... mas tudo bem, no amor é assim mesmo. As vezes nos deparamos com algo inesperado. Tudo de acordo, tudo na mesma sintonia. Assim que sabemos que está dando certo!). Levei-o para o trabalho, separei mais algumas coisas que precisaria. O final mesmo, ou seja, a montagem seria feita na facul em condições adversas. Sim, pois é terrível criar fora do ateliê.
Já na faculdade morri de medo pela segunda vez quando comecei a colar a capa. E se ficar uma merda, pensava. Mas com medo mesmo fui. O prazo estava acabando, a entrega era no dia seguinte. À parte a folha do desenho que ficou uns 7mm menor do que o esperado, tudo correu bem. Era um misto de nervosismo e excitação: cada etapa concluída um alívio e aquele orgulho de mãe quando olha um filho seu fazendo algo sozinho. Sozinho, sim, porque para mim o caderno construiu a si mesmo. Tudo que fiz foi às cegas, ele que me guiava dizendo por impressões e sentimentos como queria nascer.
Juntei umas rosas à contra capa, adicionei um pouco de tinta, colei o contact e bum! Ele estava pronto. Nasceu, eu dizia! Opa, faltou o detalhe da fita! Ah! Tudo bem! Eu coloco amanhã!
Deu tudo certo, o caderno ficou lindo! E eu assim toda boba, decidi escrever sobre ele. Meu amor em forma de caderno.
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