18 outubro 2012

Diálogos com uma psicóloga imaginária.



- Eu tenho essas vozes na minha cabeça...
- E o que você acha que é?
- Eu não sei... Ainda vou pensar sobre isso. Na verdade, não me importo muito com o que é... mas o que isso faz. Isso tira a minha paz. É uma ruminação louca de pensamentos e lembranças que não me fazem chegar a qualquer conclusão, só tiram a minha energia e ocupam a minha mente. São discussões, ponderações sobre algo que ouvi. São conversas que tive e as imagens e falas ficam repetindo na minha mente como um filme que vai e volta, quando termina, recomeça e depois corta para uma parte no meio e volta para o início. E essas conversas acontecem debaixo da minha mente, como se estivéssemos tendo essa conversa agora e, como uma música de fundo esses filme passasse. E passa tão rápido e constante que não identifico o seu conteúdo, mas no fim, sinto-me exausta por ter usado minha fala e pensamento em dobro: com você e no filme de fundo. 
- Você já conseguiu identificar alguma vez o conteúdo desses pensamentos?
- Essa semana foi o encontro com o Rafa na quinta passada e 10 bilhões de outras coisas que não tem qualquer relevância, entre fatos e hipóteses. Tudo misturado. Tento me lembrar do que exatamente acordei essa manhã pensando, para ser mais exata fui acordada por esses pensamentos, eles vão aumentando de volume na minha cabeça até que se torna impossível permanecer na cama. Já levanto exausta.
- E por que você acha que tem vozes o tempo todo na sua cabeça?
- Não sei... mas me vem algo como eu ter de estar sempre fazendo alguma coisa. Quando tudo o que eu podia fazer fora feito, mas mesmo assim não consigo parar de tentar. Sempre acho que tem algo a mais que eu podia ter feito e não fiz.
- E o que na conversa que você teve com o Rafa, você podia ter feito e não fez?
-Tê-lo convencido a me amar. 
- Você acha que pode convencer alguém a te amar?
- Não, não acho. Mas tampouco consigo aceitar que ele não me ame e deseje como eu gostaria.
- E por que você quer que ele te ame e deseje?
- Quero acabar com isso logo. Quero ser feliz de uma vez. Ter minha família, meu trabalho, minha vida. 
- E você acha que vai conseguir isso se ele te amar?
- Não, tenho de conseguir sozinha. Ele me amar ou não, não me exime das minhas responsabilidades. E mesmo se ele o fizesse, mesmo que ele me desse de bandeja família, trabalho e vida eu rejeitaria.  Por que me saboto então pensando nele e que ele me amar resolveria quando sei que não resolveria nada?
- Por quê?
- Eu tenho medo de mim. 
- Medo de você?
- É. As pessoas dizem tantos impropérios, né? Já ouvi coisas tão absurdas. Como quando esse ano tive uma crise nervosa e fiquei sem dormir uma noite inteira. Eu vinha tendo dificuldades para dormir há alguns meses, mas aquela noite foi o ápice da minha insônia, e às 5 da manhã minha mãe acordou e me viu varrendo o quarto – meu quarto tinha passado por uma reforma e havia 2 ou 3 semanas que não era limpo, então decidi limpar para ter o que fazer já que não dormia – e minha mãe insinuou que eu cheirava cocaína e que era por isso que não conseguia dormir. Essa declaração entrou como um punhal no meu peito. Que ela não saiba que eu só vi cocaína uma vez na minha vida, quando estava em um bar e saí para falar ao telefone, e vi do outro lado da rua dois homens cheirando. Que ela não saiba que entrei em pânico, que petrifiquei e assim que consegui pensar novamente, corri para o bar e fui embora para casa. Tudo bem, eu entendo. Mas como ela, minha mãe, que convive comigo todos os dias, que teoricamente conhece meu caráter, meus hábitos, que tornou a minha adolescência um inferno, me afastou dos meus amigos porque eles fumavam maconha, me entupiu de culpa até o ânus para que eu nunca – nunca – usasse qualquer tipo de entorpecente. Ela que me viu indo para psicóloga toda semana nos últimos 7 anos para tentar organizar a bagunça que sempre foi a minha cabeça e tentar não botar uma bala nela ou tomar alguma substância – lícita ou não -  que me desligasse por um minuto que fosse. Como que essa louca! tem a coragem de insinuar uma coisa dessas? Não é possível! Tem olhos e não vê! Não sabe mesmo quem é sua filha! Ou quando, no fim de um relacionamento, adotei um gato de rua e meu então parceiro disse que eu já podia terminar com ele, pois tinha o gato agora para transar. De boa, qual é a pessoa que pensa uma coisa dessas? E, por favor, quais são os mecanismos internos que permitem sua boca articular tamanha asneira? Vou mais fundo: como alguém pode ser tão sujo internamente ao ponto de cultivar algo assim? Como?  Tenho outra muito boa também! Viajávamos juntos eu, uma amiga lésbica, sua filha, um ficante meu. Em algum ponto da viagem ele me disse: “Mas não tem uma pessoa aqui que não pense que vocês [eu e minha amiga] já ficaram!”. Minha cara de “ahn?” e, bom... existe algo que possa ser dito depois de ouvir isso? Eu não consigo pensar em nada! O... cidadão, tinha uma verruga no pênis.  Eu havia feito sexo oral nele umas duas vezes antes de efetivamente ver sua genitália. Quando vi tomei um susto! Senti um nojo daquilo! Imediatamente pensei que era um câncer, DST, sei lá, e perguntei se ele já havia levada para algum médico ver e dizer se era maligno, sei lá! Falei que era grosseiro e tinha um aspecto muito particular, a frase foi: “Cara, sei lá, vai ver essa parada, porque além de feio é nojento e pode ser um câncer!”, ao que ele me respondeu “É, mas você adorou enquanto meteu a boca aí.”. Eu queria ter dito a verdade, que eu não curti tanto assim não, que aproveito mais quando a genitália é... Como posso dizer? Gigantesca e grossa, e que aí sim eu me lambuzo. Que na verdade optei por essa expressão de prazer a dois porque ele tinha um problema nas costas, ele sentia muita dor e brochava. Contudo, não queria ofender, ao que respondi com um risinho, “É, mas tava escuro!”. Sei que não tenho muito tato ao falar, principalmente de coisas tão delicadas como a impotência fálica alheia. E é aí que tenho medo de mim, hoje me arrependo um pouco de não ter dito o que penso, mas aí me lembro de como me sinto quando escuto esse tipo de impropérios e não queria causar o mesmo constrangimento às outras pessoas, aquele velho “Não faça com os outros o que não queria que fizessem com você”, que vou me igualar, etc, etc. A culpa me domina e eu escrevo no lugar de falar, mas os pensamentos continuam como um filme no backgound a me perturbar. Ao mesmo tempo penso que escolho me ofender, que me falta um pouco mais de confiança para afirmar o óbvio: morro de medo de me viciar em drogas, jamais contrairia coito com um animal e que a sexualidade dos meus amigos não interfere na minha. E que se tivesse essa confiança esse tipo de coisa passaria por mim sem ferir. E que é uma escolha deles se ofender também e eu, bom, não tenho nada a ver com isso. Mas eles revertem o jogo e eu me deixo levar, o que mais lembro dos 2 meses em que eu e o Fabrício, o da verruga, passamos juntos é a respeito de suas críticas à minha candura, ao fato de falar o que pensava e que não podia ser assim, que era errado e dele me xingando enquanto eu tentava desligar o telefone.  Agressividade e xingamentos me penetram como um tiro de 762 numa folha de papel. 

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