22 junho 2013

Cartas para Rafael: sobre o esquecimento.

Senhor, por que eu não sou do tipo que esquece?

Vamos lá! Apagando em 3, 2, 1. E...

Respiro fundo e penso: "É. É possível que eu nunca consiga te esquecer. Afinal, como se apagam dez anos do coração? Mas, mente!, será possível um intervalo, por favor?" Com os braços cruzados ela me olha de lado e bate o pezinho.

"Filha da puta! Tá me desafiando!"

21 junho 2013

A que Vim e Porque Não Vou Sair.


Tenho estado muito quieta diante de tudo que se passa nessas últimas duas semanas de protestos. Tenho estado tão quieta que quase não me reconheci. É possível que eu tenha me deixado levar pelas dores de um amor não vivido e ainda assim muito desejado, sim é possível. Me rio - assim errado mesmo - em pensar que irônica e paradoxalmente, mergulhar na multidão e ocupar a cabeça de causas maiores e igualmente desejadas, só me faz desejar ainda mais estar perto dele. Queria perguntar o que fazer, será que a ONU me responderia? Quem a gente procura em casos de guerra civil iminente? Porque, chuchu, não vou te enganar não, é isso que acho que vai acontecer.

Interrompi esse texto para sair do trabalho e vir para a faculdade. Mais manifestações acontecem hoje, porém estão concentradas nos bairros e como praticamente atravesso a cidade do Rio de Janeiro para estudar, tive de sair logo para garantir que chegaria a tempo de fazer uma prova. No caminho, dominada pelo tédio, aproveitei para prestar atenção na conversa alheia. De repente os assuntos cotidianos ficaram tão mais interessantes! Um rapaz no metro comentava com seu amigo que achava o movimento maneiro, mas estava preocupado com a direção que está tomando. Opinava dizendo que não tem uma razão específica de acontecer, que deveria ser mais organizado, mais bem explicado. Devia ter foco. Esse texto é para você, meu bem, que ainda não compreendeu porque estou, quem sou e para aonde vou. É para você também, tão pouco elucidado Dudu. Desfrute.

Saio às ruas, hoje, pelo direito de sair. Querido, ainda nem comecei a reclamar e você já colocou o BOPE nas ruas. Tsc tsc. Errado! Tem um carinha chamado Sun Tzu que escreveu um livrinho minúsculo sobre conflitos. Fala a verdade, você leu? Pois acho eu que se tivesse lido, saberia que dominar o coração é fundamental para não se antecipar. A passagem voltou ao valor antigo e ainda estamos na rua. Polícia militar, tropa de choque, batalhão de operações especiais, exército agora? E depois dele, quem você vai chamar? A mamãe? Para te consolar?

Nestas minhas escutas furtivas, ouvi pessoas comentando – surpresas! – que finalmente a juventude começou a fazer algo. Bem, eu sempre quis fazer. Só que antes minha mãe não deixava! Mas adivinha só? Cresci, estudei, formei uma opinião discordante da sua, corrupto. Durante os anos que me formava, você defendeu seus interesses, obteve vantagens intangíveis ao cidadão comum, você foi especial! Seus 14º e 15º salários vêm como a mínima exemplificação da sua diferença.

A priori, não estou aqui para reclamar de seus abusos pontuais, isso é há muito sabido. Minha revolta é contra a maneira pela qual vocês, governantes, tem se portado. É imoral, abusiva e ilegal. Curtiram bastante esses anos? Espero que sim, pois meu movimento é para aplicar a forma de pensamento que considera o bem coletivo acima do individual, entendemos que mudanças estruturais são feitas com investimentos maciços em educação e não nos seus salários! Queremos que todos tenhamos direito à saúde de qualidade, à moradia de qualidade, à uma vida de qualidade. Nosso movimento, ao contrário do que tem sido dito, tem foco sim! Queremos mudar a postura do Estado diante do povo. No bom português, vamos mudar o rumo dessa prosa. Fazer a banda tocar outro ritmo que você, Dudu, prova a cada atitude ditatorial não saber dançar.

Não posso culpar minha ascendência pelos 11 anos que silenciaram, só posso imaginar quão difícil foi entrar, viver e forçar a sair de 64, para logo em seguida voltar às ruas - ainda marcados, sem saber o paradeiro de familiares e amigos, achando que nunca saberiam (e ainda não sabem!) o que aconteceu com eles – para um impeachment.  

Os anos passaram, e estamos aqui. Somos um movimento espontâneo, apartidário e lindo. Ninguém me disse que fazer, o mesmo aconteceu com os outros 999.999 mil que estavam nas ruas comigo. Não estou ligada a nenhum grupo político, não acredito mais em vocês. Lindo, não?

Despeço-me propondo uma reflexão a respeito do desrespeito governamental pela via policial: Eles poderão torturar meu corpo, quebrar meus ossos, até me matar, então terão meu corpo inerte, mas não a minha obediência. (Gandhi)

19 junho 2013

Cartas para Rafael: Póstumas.

- Ai! Que horror! Sai de perto de mim!
- Ih! Que que eu fiz?
- Seu abraço me lembrou de como ele me abraçava. O Rafa é todo magrelo que nem você! E quando ele me abraçava fazia que nem você fez. Assim, esse abraço que cola o ombro mas não encontra o tronco. Aí eu sentia os ossinhos dos braços dele tocando as minhas costas, meio com as mãos já se posicionando de leve para sair. Ninguém me abraçava assim. Só ele.

É um abraço que não abraça em absoluto. Circula, mas não envolve. É um jeito escroto de abraçar e extremamente pessoal.

18 junho 2013

Cartas para Rafael: tomada pelo drama e por vezes banhada pela dor

Senhor! Oh! Senhor!
Como pode tamanha dor descansar
sobre ombros já tão fatigados?
Pai, seria o amor o fardo dos apaixonados?
Seria esse o meu fardo?

Entre risos e lágrimas a ideia de vê-lo partir
(quer dizer, não vi.
Marchei sem olhar para trás)
me esmaga.

Uma amiga questionou como é possível rir.
Disse-me que sofreria sozinha, doeria em seu quarto, no escuro.
Mal sabe ela, que o escuro é pesado demais para mim.
Ela diz que é para eu chorar. "Faz o que te dá vontade!"

O que me dá vontade?
Nossa! Se eu fosse fazer o que me dá vontade,
eu pegaria o telefone agora e diria que te acho um filho da mãe
por não ser um filho da mãe em absoluto!

Que eu quero que desapareça,
já que não vai aparecer mais!
Por favor aparece, fica.
Está doendo demais.

Meu ódio maior é não poder culpá-lo pelo seu proceder.
Foi correto.
Foi honesto.
Por isso dói mais te perder.

Odeio o modo como fala comigo
E como corta o cabelo
Odeio como dirigi o meu carro
E odeio seu desmazelo
Odeio suas enormes botas de combate
E como consegue ler minha mente
Eu odeio tanto isso em você
Que até me sinto doente
Odeio como está sempre certo
E odeio quando você mente
Odeio quando me faz rir muito
Mais quando me faz chorar...
Odeio quando não está por perto
E o fato de não me ligar
Mas eu odeio principalmente
Não conseguir te odiar
Nem um pouco
Nem mesmo por um segundo
Nem mesmo só por te odiar

Cartas para Rafael: O buraco no peito depois que ele partiu

E eu desejei todos os dias que ele voltasse. Desejei de todo o meu ser que fosse tudo um engano e, como todos os casais, houvesse aquele espaço entre brigas e desentendimentos que permite a reconciliação. 

Queria tanto que fosse verdade nós dois, mas a mentira da ilusão me engolia e eu já não podia mais respirar.
Diante da negativa do retorno, posso somente implorar para que se esvaneça. Eu não queria isso! Juro que não, mas sinceramente não consigo te ter de outro jeito. 

Eu queria saber, e bem que tentei nesses últimos meses, mas não consegui.

Espero que você vá em paz, mesmo. E se decidir voltar, que volte, e espero que seja antes de eu conseguir me curar de você.

12 junho 2013

Angústia e Paz.

O aperto no peito que aparece todas as vezes que penso em quem sou e para aonde vou. Incrivelmente as verdades absolutas transformam-se em dúvidas profundas e eu não sei mais o que fazer.
Todos os caminhos, todas as alternativas se mostram mais do mesmo. Estou apenas repetindo o mesmo padrão. Estou cometendo o mesmo erro, digo.
O que você quer? O que você quer?
Não, sei. Ou sei, sei lá.
Então a vertigem de angustia domina minh’ alma, sempre dizendo que podia ser o que quiser, podia fazer melhor, tenho potencial para fazer melhor. Porém, o que é melhor?
Como encontra-lo? Capturá-lo e não deixa-lo ir?
- Sr. Melhor, seria possível, por favor ficar?
Ou
- Sr. Melhor, o Sr. está proibido de partir! Agora o Sr. me pertence!
Ou
- Melhor é o caralho! Você é só bom, mas é meu mesmo assim!
E ele ficaria?
Os momentos de angústia são, geralmente, substituídos por rompantes de paz e esperança. Verto lágrimas ainda, porém agora são de gratidão.   

Davi, meu sobrinho neto.


Ontem, foi meu aniversário. E, como em todos os anos depois que a Feijão se foi, eu não quis fazer nada. Porém no final do dia minha mãe telefonou e pediu que passasse no mercado para comprar o bolo e ingredientes para fazer cachorro quente, concretizava-se a hipótese que levantamos na semana anterior: faríamos algo, nem que fosse só um bolinho.

Assim, meio em cima da hora, convidei alguns amigos.  Na festa correu tudo bem, as pessoas conversando, meus pais vendo TV, meu sobrinho neto rabiscando o quadro branco, o chão, as paredes. Davi é uma graça. E para mim, que não entendo de crianças, uma incógnita. Davi fala uma língua estranha: “pesta” pode significar presta, como “presta a atenção!” ou “me empresta?”. A lógica do seu raciocínio permite montanhas com árvores - o que dá para compreender -, porém no alto dela tem um monte de cadeiras, quebradas. 

A noite foi confusa, ele desenhava coisas que para mim não faziam qualquer sentido apesar dos meus conhecimentos em arte abstrata. E, lá para o fim da festa, convidei-o para soprar as velinhas. Primeiramente concordou, depois discordou e no fim ficou parado bem em frente ao bolo do outro lado da mesa para tão logo o “... muitos anos de vida...ÊÊÊÊÊÊÊÊ” acabar, soprá-las.

Coloquei o que, proporcionalmente ao seu tamanho, era um balde de sorvete, no final da noite levei-o para casa. Na despedida ganhei um beijo e a noite.