Tenho estado
muito quieta diante de tudo que se passa nessas últimas duas semanas de protestos.
Tenho estado tão quieta que quase não me reconheci. É possível que eu tenha me
deixado levar pelas dores de um amor não vivido e ainda assim muito desejado,
sim é possível. Me rio - assim errado mesmo - em pensar que irônica e
paradoxalmente, mergulhar na multidão e ocupar a cabeça de causas maiores e igualmente
desejadas, só me faz desejar ainda mais estar perto dele. Queria perguntar o
que fazer, será que a ONU me responderia? Quem a gente procura em casos de
guerra civil iminente? Porque, chuchu, não vou te enganar não, é isso que acho
que vai acontecer.
Interrompi
esse texto para sair do trabalho e vir para a faculdade. Mais manifestações
acontecem hoje, porém estão concentradas nos bairros e como praticamente
atravesso a cidade do Rio de Janeiro para estudar, tive de sair logo para
garantir que chegaria a tempo de fazer uma prova. No caminho, dominada pelo
tédio, aproveitei para prestar atenção na conversa alheia. De repente os
assuntos cotidianos ficaram tão mais interessantes! Um rapaz no metro comentava
com seu amigo que achava o movimento maneiro, mas estava preocupado com a
direção que está tomando. Opinava dizendo que não tem uma razão específica de acontecer,
que deveria ser mais organizado, mais bem explicado. Devia ter foco. Esse texto
é para você, meu bem, que ainda não compreendeu porque estou, quem sou e para aonde
vou. É para você também, tão pouco elucidado Dudu. Desfrute.
Saio às
ruas, hoje, pelo direito de sair. Querido, ainda nem comecei a reclamar e você
já colocou o BOPE nas ruas. Tsc tsc. Errado! Tem um carinha chamado Sun Tzu que
escreveu um livrinho minúsculo sobre conflitos. Fala a verdade, você leu? Pois
acho eu que se tivesse lido, saberia que dominar o coração é fundamental para
não se antecipar. A passagem voltou ao valor antigo e ainda estamos na rua. Polícia
militar, tropa de choque, batalhão de operações especiais, exército agora? E depois
dele, quem você vai chamar? A mamãe? Para te consolar?
Nestas minhas
escutas furtivas, ouvi pessoas comentando – surpresas! – que finalmente a
juventude começou a fazer algo. Bem, eu sempre quis fazer. Só que antes minha
mãe não deixava! Mas adivinha só? Cresci, estudei, formei uma opinião
discordante da sua, corrupto. Durante os anos que me formava, você defendeu
seus interesses, obteve vantagens intangíveis ao cidadão comum, você foi
especial! Seus 14º e 15º salários vêm como a mínima exemplificação da sua
diferença.
A priori,
não estou aqui para reclamar de seus abusos pontuais, isso é há muito sabido.
Minha revolta é contra a maneira pela qual vocês, governantes, tem se portado.
É imoral, abusiva e ilegal. Curtiram bastante esses anos? Espero que sim, pois
meu movimento é para aplicar a forma de pensamento que considera o bem coletivo
acima do individual, entendemos que mudanças estruturais são feitas com
investimentos maciços em educação e não nos seus salários! Queremos que todos tenhamos
direito à saúde de qualidade, à moradia de qualidade, à uma vida de qualidade.
Nosso movimento, ao contrário do que tem sido dito, tem foco sim! Queremos
mudar a postura do Estado diante do povo. No bom português, vamos mudar o rumo
dessa prosa. Fazer a banda tocar outro ritmo que você, Dudu, prova a cada
atitude ditatorial não saber dançar.
Não posso
culpar minha ascendência pelos 11 anos que silenciaram, só posso imaginar quão
difícil foi entrar, viver e forçar a sair de 64, para logo em seguida voltar às
ruas - ainda marcados, sem saber o paradeiro de familiares e amigos, achando
que nunca saberiam (e ainda não sabem!) o que aconteceu com eles – para um
impeachment.
Os anos
passaram, e estamos aqui. Somos um movimento espontâneo, apartidário e lindo. Ninguém
me disse que fazer, o mesmo aconteceu com os outros 999.999 mil que estavam nas
ruas comigo. Não estou ligada a nenhum grupo político, não acredito mais em
vocês. Lindo, não?
Despeço-me
propondo uma reflexão a respeito do desrespeito governamental pela via policial:
Eles poderão torturar meu corpo, quebrar meus ossos, até me matar, então
terão meu corpo inerte, mas não a minha obediência. (Gandhi)
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