O que tá me matando é achar que nunca vou ouvir o que passa aí dentro.
Não sentir mais o coração ficar quentinho e transbordar quando te via.
Sentir seu corpo magro sendo esmagado por mim. E você meio sem jeito. De um jeito pela metade que é todo seu.
Foram os anos que passaram e eu não percebi que, na verdade, ser receptivo, e lembrar de tudo que foi dito não significam necessariamente conexão. Muito menos interação. Reciprocidade.
Não ter notado que quem ligava era eu. Quem procurava era eu. Que da sua parte já havia acabado há anos.
Um misto de traição e culpa. Por não ter ouvido de você o mal te fiz pra fazer você se afastar. E se não fiz nada, o que te deu o direito de tirar meu direito de me importar? E principalmente por não ter tido maturidade suficiente para perceber o que estava acontecendo e para onde estávamos caminhando.
Dor por pensar em você agora e meu coração ficar apertado.
Vergonha e raiva por não ter gritado o tanto que eu queria nem ter te socado até doer.
Tristeza e confusão. Por estar com o coração apertado e ferido e não ter conseguido chorar. Logo eu.
Mais tristeza ainda por achar que nunca vou conseguir saber.
Desolada por acreditar que não sou especial para você. Não mais.
Ansiedade por pensar que o que passa aí dentro não vai agradar meus ouvidos. Muito menos satisfazer meu ego.
Medo por ser isso ou não ser nada. E não ser nada.
Certeza de que todas as verdades são apenas velhos clichês. As mentiras é que conseguem, às vezes, ser originais. E que prefiro uma verdade/clichê que doa a uma mentira que mate. De que não será saboroso. Mas bom.
Estou com ódio por estar passando por tudo isso. Por estar escrevendo este e-mail. Por não conseguir meter a mão dentro da porra do peito e arrancar você sem tirar o meu coração junto.
Porque em verdade eu não quero. Eu não sou de morrer assim. De uma vez. As coisas vão minguando. Diminuindo. Decepcionando. Até que um dia, quando eu vou procurar elas não estão mais lá.
Que os dias vão passar, e o buraco com o cofre que te leva vai afundando, afundando até eu olhar pra você e não sentir mais nada.
Eu confio. Infelizmente não mais na amizade. Mas no caráter. Na integridade que sei que estão contigo aonde quer que você vá. Então eu te peço que você diga o que tá passando aí dentro.
Mesmo que você a tenha dito. Repita. Como um último gesto de amizade. Repita. Pois não to conseguindo seguir em frente. E não gostaria mesmo de deixar enterrar alguém que ainda está vivo.
Ouvir que você não queria ficar comigo doeu. Foi chato, mas tudo bem. Get over it.
O problema foram os sentimentos que vieram depois disso e que não tinham muito a ver com isso.
O problema foi hesitar em te dizer algo. Pra você!
O problema são as horas de sono que ainda não tive.
O problema foi não ter sido completamente honesta. E ter de enfrentar a honestidade ou, ainda pior, o silêncio alheio.
Eu não tenho mais confiança de que você não vai me magoar. Eu não sei mais em quem você se tornou, e nem se o que eu sinto é por você mesmo ou por alguém que já não existe mais.
Eu só queria a chance de enxergar. E o direito de decidir se vale a pena continuar sentindo ou se é melhor só lembrar. A chance de poder ajudar. Logo você que eu sempre gostei tanto. Logo você, que eu sempre gostei tanto.
Entendo que você queira e precise viver situações para se encontrar. Mas é que ta muito difícil de aceitar que pra isso eu e você não possa mais existir.
Eu sei que estou te pressionando. Mas não se preocupe, pois não se tornará uma constante entre nós.
E agora? Agora sim.
Abraço-te carinhosamente, com todo o amor e e parte da dor que há em mim.
Nany.
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De: Rafael
Para: yyyyyyyyyy@yahoo.com.br
Enviadas: Quinta-feira, 2 de Dezembro de 2010 19:42
Assunto: RE: Rafa,
Nany, inicialmente desculpa a demora pra responder, mas preferi responder quando tivesse um pouco mais de tempo pra te responder.
Vc falou de tanta coisa diferente que fica difícil de responder tudo, mas vou ir falando o que eu sinto.
Eu queria te dizer que acho vc uma pessoa muito especial, não só por tudo o que vc é, mas o que vc representou pra mim como pessoa. Vc foi a primeira pessoa com quem me abri durante uma fase muito difícil que eu passava na vida, e que se aproximou de mim num momento que era mto difícil pra eu me aproximar. Vc foi uma pessoa que revelou um lado mais humano e pessoal que eu descobri a aprender que tenho, mas que eu deixava ou deixo guardados por mto tempo.
Eu não sei o que dizer por nunca ter correspondido da forma como vc pensava ou gostaria, mas eu sempre te vi como uma amiga muito especial, talvez a única que eu tive ou tenho, não sei.
Mas o jeito que eu tenho pra demonstrar amizade é muito estranho, por isso eu não ligava, e nem costumo ligar pros meus amigos, mesmo os mais próximos. Eu tenho uma imagem de amigo como aquela pessoa que vc encontra ou vai encontrando no decorrer da vida e em cada momento é como se fosse a primeira vez que a gente tivesse se encontrado. Como uma pessoa que por vezes viaja e volta pra conversar contigo.
Não sei se é uma imagem muito distorcida a de vínculo que eu tenho, mas é a forma com a qual eu lido com tudo isso. Como se também eu estivesse prestes a fazer uma viagem pra ficar muito tempo fora....
Eu não sei e acho que nunca vou saber retribuir o quão importante vc foi pra mim, e das coisas que eu aprendi com vc. Mas acho que esse tipo de amor da forma que vc sente não é o que eu sinto.
E não é algo que eu possa prometer sentir um dia. Eu hoje posso te afirmar que não amo ninguém dessa forma como estou tentando colocar. Eu te contei um pouco dos conflitos internos que eu venho tendo, e acho que vou continuar tendo por um bom tempo e que vão me levar por caminhos pelos quais eu não sei. Mas posso te afirmar que é isso que eu sinto e tenho vontade de sentir hoje.
Eu sempre acho que fui meio contido pra falar as coisas que eu sinto, mas acho que a principal coisa que sempre contive foi meu olhar de mundo, e de novo foi pra vc a primeira pessoa que eu contei sobre aquilo que eu sentia e continuo sentindo.
Eu com certeza mudei desde que a gente se conheceu, e acho que vc também, e isso é natural. São mais de 6 anos que nos conhecemos, e ainda temos muito pra mudar.
Não sei o que hoje seria melhor pra lidar com isso, se talvez se afastar por um tempo ou não. Mas eu posso te dizer que ainda te vejo como amiga, e se vc estiver com vontade de conversar qualquer dia desses, pode contar comigo.
Um beijo enorme,
Rafael
Eu só queria continuar a ser sendo. Porém foi há tempos que entendi que nem sempre os momentos são iguais, aliás, são quase sempre diferentes.
E como amigos que fazem uma longa viagem e a cada momento que se encontram é como se fosse a primeira vez, te desejo toda a sorte do mundo na sua caminhada.
Esteja seguro que para sempre te levarei no meu coração.
Te abraço,
Nany.
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Rio, 08/11/2012
15:48
E eu levei quase um ano pra conseguir chorar. Logo eu que choro até com comercial de margarina.
Quando eu fecho os olhos e penso que te pode acontecer alguma coisa nas suas lutas políticas e nos lugares muito perigosos que eu sei que você quer ir o meu coração aperta forte. Muito forte e eu quase morro.
É uma dor que nem a de quando a Jú se foi. É grande. E eu penso que não vou aguentar perder outra pessoa assim, outra vez.
Mas quando penso na dor que sinto ao ver alguém que amo sofrer porque eu quero vivenciar experiências e mudar de país: eu sei que não posso te fazer sentir isso. O olhar deles só faz aumentar a minha dor de ir. E eu quero que você vá! Eu sei que é isso que vai te fazer completo.
Eu não quero ficar cavucando feridas antigas, porque sei que isso dói em você também, mesmo você sendo melhor do que eu escondendo.
Eu tentei ficar longe, sair... mas... é que eu sinto tanta falta de sentir o que eu sentia por você. Eu nem sei se é de você mesmo que eu sinto falta, mas com certeza daquele sentimento.
E eu queria muito sentir por outra pessoa, mas é tão difícil encontrar outra pessoa para sentir o que eu sentia por você. Eu procuro, eu juro que eu procuro, mas não tô achando. Alguém, que pareça com você, que aja como você, mas que não seja você!
E por mais auto-destrutiva que eu seja, eu não quero. Não quero que acabe eu e você. Eu quero que nasça. Mas talvez seja necessário que eu e você de antes morra para que eu e você de agora nasça.
Eu quero ter você comigo. Não o tempo todo. Eu não ligo pra isso, mas eu quero dentro do coração, pra isso eu ligo. Eu quero redescobrir quem é você... pra ver se é você mesmo quem eu não quero que morra, pra ver se é por você mesmo que eu seguraria a barra e a porta do elevador.
Eu sinto tanta falta de sentir o que eu sentia. Eu sinto tanta falta de ter meu coração transbordando ao te ver. Ele enchia de verdade!
Eu não sentia sua falta quando não te via, não... era tipo normal... e eu falava pras pessoas de você com orgulho!
Mas quando eu te via... eu sempre me surpreendia em como era possível eu sentir tanto a sua falta e estar TÃO feliz de te ver.
Naquele dia na praia eu vi que tinha acabado. E eu que não tinha percebido isso. Eu não quero falar de como você sempre foi cavalheiro e me trouxe até em casa e não faz mais. Eu acho que eu mereço você não mais me trazer. Eu não soube valorizar quando você fazia, é justo que tenha perdido.
Eu lembro de uma vez que você quis pagar o cinema pra mim. heheheh Foi lá no NY. Eu nem lembro se deixei ou não você pagar. Se bem que do jeito que eu sou, devo ter mandado você tomar no cú e pago a minha entrada. hehehehehe, mas isso é pq eu me faço de durona. No fundo eu fiquei meio sem jeito porque foi a primeira vez que... eu queria dizer que achei você fofo, mas não foi isso. Foi a primeira vez que senti meio boba perto de você e fiquei com um sorriso permanente na cara depois disso. Ainda tenho essa cena que passa como um curta de alguns segundos na minha cabeça! E sabe quando você fixa o olhar no nada e dá um risinho? É assim que eu fico! hehehe
Sou dessas pessoas que lembra... e agora que tenho carro e você não, faço questão de te buscar e levar em casa. Isso vai um pouco de encontro ao cavalheirismo. O meu pai diz que quem tem de pagar a conta e trazer em casa é o homem e tal... eu discordava dele mas agora eu tô tipo que concordando... aparentemente os homens não valorizam muito as mulheres que não valorizam o cavalheirismo. Mas como é que vou te deixar caminhando de noite na chuva pra casa? Não posso! Não tá certo!
Ah! Deixa isso pra lá! Tanto faz mesmo! O cavalheirismo só se aplica para homens e mulheres que relacionam-se amorosamente e bom... não é o nosso caso.
Na verdade não tem nem caso nenhum... eu tô conversando com você mas só na minha cabeça... essa conversa nunca existiu. E de repente é melhor não existir mesmo... não quero ficar cutucando assuntos que já passaram. Por mais que todas as vezes que eu te encontre acabe tocando nesse assunto; disso que aconteceu.
Eu juro que tento não te encontrar! Mas eu me saboto! E quando vejo já estou te ligando e aí você atende e você sempre pode encontrar e ajudar e ai eu vou.. e é sempre tão legal (excluindo a parte que eu fico te atacando por debaixo dos panos, foi mal é um desvio de caráter. Uma reação quando me sinto insegura. Ei! Ninguém é perfeito! Você esperava o quê?) Mas pra não te atacar mais eu preciso que você morra. Não morrer, morrer. Mas que o velho Rafa morra pra que outro possa nascer.
Pra que eu possa te reconhecer. Mas já vou avisando que não sou dessas pessoas que vão se abrindo assim tão fácil não! Eu sou devagar... caso você ainda se interesse de ser meu amigo, é claro. Meu amigo imaginário na minha conversa imaginária.
Putz! Eu tenho que parar com essa mania de escrever no blog no lugar de falar com as pessoas!
Mas vou dizer: eu acho até bom... evita uns desgastes. E no final eu acabo resolvendo uma coisa ou outra!
Ah! Mal ai pelo drama... mas cara é punk... todas as vezes que escrevo chorando sai um pouco melodramático!
Um abraço, forte!